segunda-feira, 19 de julho de 2010

É caseiro sim senhora...

Numa altura de contenção financeira, em que os tostões na carteira perdem espaço para as simpáticas traças (e que gordinhas estão, alimentadas pelos vestígios de infrutíferos talões da sorte grande que sempre foi azar), continuamos a escolher formas curiosas de gastar os nossos recursos.
Todos na vida procuram o melhor, dentro das limitações que a realidade cruel nos impõe. Mas este melhor é, não raras vezes, uma ilusão, uma máscara. Procuramos sim o mais reluzente em vez do verdadeiro material precioso (já o dizia numa magnifica música o poeta cantor edward louis severson III).
Nos beirais de inúmeras estradas deste país, de tantas lugares mundados, empilham-se bancadas artesanais apregoando o produto caseiro, o produto original, recheado de pureza da ponta da folha de espinafre ao tutano da galinha depenada. O citadino pára, desembolsa dinheiro, reluz a genuidade do campo, e para casa, leva a ilusão da fruta mais fresca (aquela doçura da maça escorrendo suco que nem uma chuva de sabor a cada dentada), a promessa da carne mais tenra, a convicção da flor mais aromática ou da verdura que de tanta vitamina e fibra, envergonha o melhor dos suplementos vitamínicos. Leva as ilusões, leva as convicções, leva também o brilho, sem quase nunca levar o precioso. Leva sim a fruta das grandes superfícies comerciais, a carne de um banal talho, a certeza sobretudo de que procurando o melhor esqueceu o precioso, levou apenas o que mais brilha. Esperto o saloio, que de ar tão angelical e puro, limitou-se a adquirir os seus produtos num qualquer supermercado. Não é o conteúdo, é a embalagem reluzente que importa.
Aqui se aplica o curioso provérbio de "comprar gato por lebre". Ainda que nunca eu comi lebre, mas as semelhanças entre um semelhante de coelho e um gato me pareçam aí sim demasiado óbvias. Confesso nunca ter visto um gato escalfado, como os pobres coelhos no talho, mas acho que aí reconheceria a diferença. Já a diferença entre latão polido e ouro ferrugento é de distinção mais destinada aos olhos e instinto mais exímios.
Ora com as suas compras aldrabadas no aconchego da sua dispensa, decide o nosso "alguém" entre tantos "ninguéns", seleccionar um destino de férias. Vasculha os sítios que cada um dos alguéns do seu mundo particular de ninguéns recheia de elogios. Esquece-se que não há nenhum ninguém que, para ser alguém, não escapa à gabarolice e as férias num sitio exótico, mas ilustradas por chuvadas, alergias e tropelias, tornam-se um conto de fadas, solarengo
Escolhe-se o hotel mais caro, pois nem que seja por 2 tostões, se é mais caro é necessariamente melhor. Escolhe igualmente o destino mais caro que lhe permite a sua bolsa, com um qualquer incremento de um fácil (mas condenador) empréstimo de ocasião. Se é mais caro, é naturalmente, melhor. Esquece os seus sonhos, os seus gostos, as suas preferências. Esquece porventura que tem um medo aterrador de água, no entanto selecciona o paraíso dos mergulhadores. Tem um medo petrificante de longos voos, mas escolhe um destino do outro lado do mundo (para além de onde Colombo acreditava cair da Terra para o vazio. E que delicioso era a ideia de um mundo chato e achatado). Abomina a praia e não foge ao destino cuja areia beijando o mar são a única opção para se ocupar. Esquecemos o que valorizamos para ostentar-nos por cada cantinho de um mundo que nos ignora com uma reluzência que em nada condiz com a nossa felicidade.
Escolhemos o mais caro, tal como escolhemos o mais barato (e aqui surge a irritante mania de cidadãos abastados apregoarem que compram económico na feira as suas blusas GAP, Sacoor e afins, tudo para reluzirem com a sua simplicidade artificial), o mais piroso, o mais requintado. Escolhemos vezes de mais o que mais brilha aos olhos alheios do que o que é realmente precioso para nós. Deleitam-se mais os olhos do que a alma, esforça-se o ego mais por agradar ao alheio do que a ele próprio.
Para ver o brilho em algo é indispensável que seja polido. Polido com empenho, com esforço, com perseverança quando após tanto esfregar (e o teimoso génio da lampâda permanece numa teimosa sesta) o brilho urge em surgir.
Mas o brilho fácil desvanece, desgasta-se demasiado rápido. É a diferença entre ter um brinde reluzente saída numa bola de 2 euros, ou um anel de ouro escondido no fundo de uma gaveta, e que espera apenas a nossa atenção para resplandescer.

PS- Avozinha, obrigado por tantas vezes me levares à feira quando era mais pequeno, mas os senhores da feira cheira-me que vendem azeitonas e alfaces iguaizinhas ao Pingo Doce=)

2 comentários:

  1. Caríssimo autor, não sei por que estradas tem passado ou que saloios tem encontrado, mas sugiro que se desloque, numa bela tarde de sol e calor, por exemplo até à Estrada Nacional 251 (rumo ao Alentejo). Aí encontrará saloios (curiosa a escolha da palavra para descrever estes senhores e senhoras trôpegos que se avistam ao longo das estradas), sentados grosseiramente num qualquer banco desconfortável, debaixo de uns toscos chapéus-de-sol, que egoistamente viram para si, deixando a pobre da fruta a esturricar ao sol. Estes saloios são os desconhecidos que escrevem os famosos cartazes que chegam tantas vezes até nós via email: “à tramaço e minuins”, “vendesse cereigas”, “vendem-se belâncias”. Perdoe-me a ingenuidade prezado autor, mas não creio que estes senhores e senhoras, com tão alto e admirável nível de literacia, engendrem planos elaborados para extorquir dinheiro aos senhores e senhoras que, saídos dos seus belos carros, de vidros fechados e ar condicionado a temperaturas capazes de quase reproduzir o ambiente árctico, param ao seu redor.
    Estes saloios vendem frutas genuinamente plantadas, cuidadas e colhidas por si, sem recurso a estufas, produtos químicos e afins, que as tornam agradáveis à vista, mas pouco apetecíveis para o paladar. Vendem-nas na beira da estrada porque certamente não terão volume de produção que lhes permita estabelecer acordos com grandes superfícies comerciais. Assim, depois de uma vida inteira dedicada à agricultura, nada mais lhes resta se não passar dias inteiros sentados, ao calor, ao frio (ao que o S. Pedro quiser!), para levarem uns míseros tostões para casa... Sim, que estes saloios, até a pedir são pobres.
    O estimado autor diz que ao citadino “Não é o conteúdo, é a embalagem reluzente que importa”, perdoe-me novamente o reparo mas, não terão as embalagens do Pingo Doce um aspecto bem mais reluzente que os sacos de plásticos amachucados e gastos de tantas reutilizações, dos saloios à beira da estrada?! Acredito que ao citadino importa sim a autenticidade, os sabores que lembram a infância, o morango que sabe a morango, a melancia que sabe a melancia, e não a embalagem onde tudo isto vem envolto. Apenas se poderá considerar que é a embalagem que lhe importa, se à embalagem corresponder o desejo e vontade de comprar o que é genuíno, e que se não for à beira de uma qualquer estrada ou numa mercearia bem pequenina, gerida por um senhor bem velhinho e perdida numa ruela que não se acha no mapa, não encontrará.
    E, o citadino até poderá ser muitas vezes enganado, mas não valerão todos esses enganos a pena, quando finalmente consegue trincar uma maçã que escorre doçura a cada dentada?!

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  2. (Continuação)
    Férias, essa palavra mágica capaz de fazer milagres pelo humor humano, quando passa apenas de uma palavra para um estado físico e mental (queriam os saloios conhecer esta sensação!).
    Citando outra magnífica música do poeta cantor Edward Louis Severson III, a lista de coisas que desejamos tem um fim a perder de vista e, assim sendo, torna-se difícil a escolha. Queremos conhecer uma cidade europeia, recheada de história e património culturalmente interessante, mas não queremos deixar de aproveitar o verão e o calor, então… Londres ou Ibiza?! Grécia ou Punta Cana?! É aqui que nos socorremos das pessoas mais próximas, na procura de uma solução. Procuramos perceber, através da experiência de outros, que destino convirá mais aos nossos interesses e objectivos. Ouvimos as descrições entusiasmadas desta e daquela aventura, escutamos as reclamações deste e daquele destino, poderemos até ver umas quantas fotografias, mas no final pesará a gabarolice dos outros na nossa decisão? Tal como a realização dos nossos desejos, também a satisfação das nossas necessidades tem de ser hierarquizada, assim manda a actual conjuntura económica (manda hoje, como mandava à 60 anos e mandará daqui por mais uns tantos). Logo, mais do que escolher o hotel mais caro, ou a cidade mais na moda, acredito que cada um de nós escolhe o seu destino de férias de acordo com as suas prioridades e, naturalmente, com as suas contingências… Escolhemos o que mais brilha.
    E, ao contrário do caríssimo autor, não creio que para ver o brilho em algo se torne indispensável que o mesmo seja polido, se não vejamos… Humanamente falando, diria que existem pessoas que possuem um brilho natural, que chega aos olhos dos outros sem qualquer tipo de “esfregadela”, e existem outras que se carregam de diamantes, lantejoulas e toda e qualquer espécie de material brilhante, e ainda assim não conseguem luzir. Ora, dependerá o brilho de alguém, ou algo, dos olhos que o olham, ou será esse brilho tão intenso que reluz para qualquer observador?
    Creio que o empenho, o esforço e a perseverança devem ser empregues, não no polimento de algo para que brilhe (afinal quem quer possuir algo de brilho artificial e efémero?!), mas sim na manutenção do brilho de algo naturalmente reluzente, para que este perdure por muito tempo (afinal quem não gosta de se fazer acompanhar de algo capaz de encadear e encher de inveja todos os que o olham?!).

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