quinta-feira, 8 de abril de 2010

Home sweet home: Serão as paredes, afinal, doces?

Nas palavras imortalizadas pela cativante balada de Chris Daughtry todos nós percorremos um trilho, que por mais tortuosos sentidos tome, leva-nos sempre até à nossa casa. "i'm going home, to the place where i belong", grita a plenas pulmões o música, grita em plenos pulmões o nosso espírito inquieto.
Parecendo saído de um qualquer drama cinematográfico, alguém, um destes dias (não importa quando, pois o passado torna-se em presente sempre que o recordo) faz da sua surdina um grito audível, exclamando "tenho saudades de casa". Momentos depois suspirou pela última vez, o ar evaporou-se de um corpo já frágil, o sangue gelou em veias cansadas de um vida de frenesim, o coração repousou de um ritmo incansável, acelerado pela alegria ou pelo medo, adormecido pela tristeza ou pelo conformismo.
O que buscamos nós na vida? Ser felizes? Sem dúvida; Sentirmo-nos realizados? Claro; Alcançar um passado digno e um futuro risonho? Certamente. Mas a vida é cheia de turbilhões de sentimentos, de eventos, de acasos. Que nos testam, que nos magoam, que nos ferem com a cruel verdade de que nem tudo é possível.
E se a vida é uma espera, é também uma indubitável verdade que é também uma fuga. E corremos, meus amigos, todos na mesma direcção: para casa. É lá a nossa segurança, o nosso abrigo, o nosso "botaão de pausa" num filme sempre em rodagem, tantas vezes depressa demais para que sequer consigamos ler as legendas (ainda que não ler as legendas possa ser igualmente um problema resultante de vermos o filme perto demais, nada que ver o filme ou qualquer questão na vida 2 passos atrás, não resolva)
Mas onde é a nossa casa afinal? Serão as 4 paredes que nos dão abrigo de uma Natureza jocosa e irónica? Será um local? Ou terá algo para além de uma dimensão física? A casa não é construída de tijolos, de telhas, de cimento (de maior ou menor consistência, directamente proporcional ao empenho e consciência do construtor), é constituída por sentimentos, abraços, sensação de segurança e de pertença. O lar, mais do que uma dimensão visível é uma sensação, e o que procuramos é, no fundo onde pertencemos.
Não há melhor exemplo do que a história (e não estória como alguns novos inventores do português procuram impingir, aliás mais do que a eles, respeito todos os que tiveram a bondade de me ensinar o dom da escrita) dos 3 porquinhos e do lobo mau. Ora vamos então por partes.
Resumidamente 2 dos porquinhos foram preguiçosos, ergueram casas frágeis. Um outro porquinho ergueu uma casa mais sólida, cheio de brio e labor. Eis chegado o lobo mau (ainda enfartado ou não após o belo deguste da avózinha do Capuchinho Vermelho), que, obviamente não tendo hábitos de fumador inveterado e conservado um invejável fôlego, deita abaixo as casas frágeis, restante a casa sólida como porto de abrigo.
Injustiça N.º1: obviamente a casa de tijolo foi mais demorada a construir, logo caso o logo lá tivesse ido primeiro, provavelmente estaria ainda nas suas fundações.
Injustiça N.º2: sendo a última a ser visitada, a casa sólida sofreu um sopro bem menos conseguido. Afinal não há fôlego que resista, nem mesmo do melhor alpinista ou mergulhador de apneia.
Injustiça N.º3:alguém quer fazer passar a ideia de que só uma típica casa de tijolo é segura, quando há séculos o ser humana habitou em casas de gelo, palha e afins materiais.
Alguém questionou quem seria o porquinho mais feliz? Porque razão tem de ser a casa física mais sólida a proporcionar a maior felicidade?
Mais do que qualquer condição física, a nossa casa são os nossos lados. Aqueles que amamos, respeitamos, desejamos, são o nosso tecto, as nossas janelas, cada rodapé, cada ombreira da nossa vida.
Mais do que uma cozinha reluzente, mais do que uma casa-de-banho (mas afinal só se lá toma banho?...) admito que casa-de-fazer-necessidades se tornava um nome pouco apelativo) luxuoso, mais do que um quarto repleto de mordomias e uma sala-de-estar (e não é qualquer sítio uma sala de estar? basta lá estarmos e ser uma sala...) repleta de decorações inúteis, acariciadas até ao tutano pelo cotão e seu amigo intimo pó, importa ser feliz.
Um qualquer sítio será o nosso lar se lá estivermos felizes. Mas a função do lar não é só proporcionar conforto. Aliás mesmo a mais bela casa se torna obsoleta, nos cansamos dela se deixarmos que esmoreça o encanto inicial de quanto metemos o primeiro pé dentro dela.
Eventualmente o lobo acabaria por conseguir entrar na casa sólida, pois habituados ao sentimento de segurança, os porquinhos descurariam investir no lar. Iriam acomodar-se e em breve tudo seria melhor que o seu lar.
Para muitos a acomodação à casa, leva a que o seu lar seja transferido para um bar próximo, para o emprego, para os braços de um qualquer amante. A casa traz segurança, traz comodidade, mas não é o lar.
O lar é doce, são os beijos de quem amamos, os sentidos abraços dos amigos, o amor da família, a adrenalina da aventura. Mas o lar é exigente também; agarrá-lo é um desafio, que atormenta a nossa tendência natural de acomodação.
Mais do que sentirmo-nos em casa, temos de nos sentir no lar. Mais do que descalçar os sapatos e colocar os confortáveis chinelos, há que amar o lar, fazê-lo sentir tão especial quanto nos faz a nós.
Saiam de casa, procurem o vosso lar. Alguém o procurou fora deste mundo, procurou algures num espaço que desconhecerei, mas a distância que cada um percorre depende dele próprio. O lar é cada esquina, cada momento, cada segundo, em que lutamos, em que sorrimos, em que dançamos, em que somos felizes.
Abram as portas, pois as 4 paredes que vos resguardarão da chuva apenas vos impedem de sentir a paixão de cada gota.
Façam da felicidade de cada momento o vosso lar, o sítio onde afinal, pertencem.
Home sweet home... para não esquecer, o doce apenas se sente quando já provamos o amargo. Requer-se luta, requer-se sofrimento, requer-se coragem para fechar a porta de casa e entrar nos portões escancarados do lar.

PS O meu respeito e solidariedade a todos os que têm de fazer da rua a sua casa. Não deixem de buscar o vosso lar.
Esta solidariedade está imortalizada de forma brilhante por Pedro Abrunhosa, não deixem de espreitar: http://www.youtube.com/watch?v=sqK7Ys155j4





5 comentários:

  1. Adoro a música de que falas, escreves com alma, paixão, palavras sábias de alguém que já deve ter vivido bastante.

    Bem haja para ti

    *Sweet Dream*

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  2. A expressão “amor e uma cabana” parece caber aqui na perfeição. No fundo, esta velhinha máxima dos românticos inveterados não nos diz mais senão que, importante não é o espaço físico mas sim a dimensão intra-familiar. Se nos sentirmos amados, seguros, confortáveis sentir-nos-emos em casa, mesmo que a dita seja feita de palha e passível de ser atacada por um qualquer lobo mau!
    Claro está que a maioria das mentes extrapolou esta expressão para um sentido mais inter-relacional, fazendo crer que numa relação nada mais importa se não o amor… Presumo que todas estas mentes, mais cedo ou mais tarde, acabarão por perceber por conta própria que as relações são um pouco mais complexas que isso!
    "I don't regret this life I chose for me" podemos ouvir na balada supracitada... Quantos de nós conseguem fazer esta afirmação sem hesitar?! Sentimos que a vida que levamos foi realmente uma escolha nossa ou que, de alguma forma, é apenas a vida que nos calhou em sorte? É claro que não nos podemos eximir totalmente de responsabilidades, porque num ou noutro momento fomos chamados a tomar decisões e com mais ou menos vontade, mais ou menos convicção, lá as tomamos, arcando com as consequências que daí advieram… Mas será que essas decisões foram mesmo nossas, e só nossas? Não terão sido fruto de todas as contingências sociais com que lidamos desde o berço? Fruto de todas as expectativas que recaem diariamente sobre nós? Seja como for, a última palavra é sempre nossa… Vamos sempre a tempo de mudar, basta não ter medo de romper com a acomodação e ter a coragem de assumir os riscos!
    Se sentimos que a nossa casa não é o nosso lar talvez valesse a pena perguntarmo-nos porquê… Será porque empreendemos todos os esforços e energias na busca da casa perfeita, com a decoração perfeita, e depois nos esquecemos de que também tínhamos de investir na construção do lar? Será porque a dinâmica familiar tem realmente pouco de familiar, restando apenas o familiar do que circunda a casa?
    Aproveito para sugerir outro tema do Pedro Abrunhosa, o meu preferido, que embora não remeta propriamente para a noção de casa/ lar, remete para o que muitas vezes nos faz permanecer numa casa que não sentimos como o nosso lar… http://www.youtube.com/watch?v=EVjXD0lwEH8

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  3. Referencia a 1música fantástica. Canta a plenos pulmões ele, e acredito que tds nós qd a ouvimos!

    As paredes da nossa casa, do nosso trabalho, dos locais que habitualmente frequentamos por imposição ou vontade própria, não são necessariamente doces, podem aliás ser bem amargas... intragáveis até! É nestes momentos que buscamos...

    ... aquele LOCAL onde nos sentimos tranquilos, leves, soltos...
    ... aquelas PESSOAS sempre presentes, com as quais partilhamos o bom, o menos bom e o mau, os risos ensurdecedores e o silencio cúmplice, aquelas que lutam por nós e connosco, com as quais discutimos, que nos ajudam a levantar qd caimos por vezes com um "i told you so!", aquelas com quem não podemos viver sem... cuja simples presença nos eleva à tranquilidade...
    ... aquela MUSICA...
    ... aquele FILME...

    "Home" é aquilo que nos faz sentir bem... LIVRES!

    Aplaudo a tua visão e atitude impulsionadora da busca de nós próprios... "Home is where your heart is..." citando parte da lyric de JESUS OF SUBURBIA,

    Segue-se no entanto "... but what a shame 'cause everyone's heart doesn't beat the same". Devemos buscar o que nos completa, complementa, preenche, satisfaz... resumindo: aquilo q deve fazer parte de nós e do qual devemos fazer parte... 1relação pura, natural e simbiótica!

    Teremos nós coragem de deixar a nossa CASA (comoda e garantida) e procurar o nosso LAR (indefinido e incerto)?

    Sentir as gotas de chuva no rosto é mt bom... mas eventualmente molhar-nos-emos, ficaremos desconfortáveis e com frio!
    Quereremos sentir a chuva, o frio, o peso da roupa ou quentes, confortáveis e protegidos debaixo de um chapéu?

    Dificilmente conseguiremos concomitantemente ambos

    Teremos de escolher, 1decisão nossa, certa ou errada, socialmente aceite ou nem tanto, sujeita a olhares críticos ou aplausos de incentivo... mas sempre nossa!
    Decisões que nos permitem a construção do nosso Lar!

    Tb eu aqui deixo sugestão para 1música. Não tem necessariamente a haver com o Lar, mas com o seu conceito expresso na publicação. Relaciona-se com as pessoas e decisões que nos fazem pensar o que e quem realmente importa, e que devemos valorizar e estimar!

    NOVEMBER RAIN - Guns n' Roses

    Esta é há muito 1 dos meus Lares =)!

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  4. SIM, TU SUGERISTE E EU VIM TE VER POR DENTRO ;) Agradate teres seguidores? Queres estrelato ou ser anónimo? Queres ser seguido ou no fundo gritar ao mundo mas ser ignorado? 'Tás a chegar aos 30 priminho muitas questões muitos sentimentos ainda muito floreados explorados subentendidos... podes escrever milhões de palavras.... i'm so proud and i never had a doubt bjns nidia

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  5. and suddenly i felt like a homeless aching for dancing covered by a thousand walls of silence!

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