sábado, 24 de abril de 2010

Esticando a mão, toco no vidro que me separa do mundo...

Gentilmente ou bruscamente, a areia é acariciada pela água do mar. Beija-a com a violência das ondas, escuta-a com a tranquilidade de uma maré que desagua serena. No horizonte o sol deixa-se embalar, ameaça tocar a água, naquela distância longínqua que não poderemos nunca alcançar.
As marcas de pegadas desvendam histórias imensas, de brincadeiras, de romance, de aventura, de um qualquer "porque sim", de todos os "porque não?".
Mas, transpondo os limites da praia, alinham-se carros, empilham-se almas. De norte a sul do país, de este a oeste no mundo, a imagem é transversal, qual fotocópia, pincelada somente com cores diferentes. E por mais que viaje a imagem repete-se, sem cultura, apenas com pequenos detalhes que a impedem de ser enfadonhamente igual.
Dentro de carros pelo mundo fora alinham-se casais, famílias inteiras, individuos solitários, que escolhem ver o mundo através de um vidro. Resguardam-se do calor da areia nos pés, dos salpicos refrescantes que saltam frenéticos de cada onda, das conchas enterradas na areia, vindas de uma qualquer parte do mundo.
Não será então preferível sintonizar no conforto do sofá um qualquer canal que, em filmes hollywoodescos ou em documentários entediantes, mostra a praia?
Admiro esta procissão domingueira, afinal de contas as massas (porque raio um aglomerado tem de ser chamado de massa? Será uma pasta humana?), desafiam o comodismo e vão ver o mar. Porque criticar? Porque simplesmente preferem estofos confortáveis, ar condicionado e musiquinha sintonizada, gritando clássicos, relatos domingueiros de futebol ou êxitos da dança moderna? Até seria uma opção possivel de aplaudir, o conforto acima de tudo.
Mas no final do dia quantos saberão a temperatura da água? Quantos deixarão um castelo de areia que marcará a sua presença (devidamente decorado posteriormente por uma poia de gaivota, com certeza)? Quantos sentiram a areia escorregando estre os dedos?
Vivemos hoje o mundo demasiado através de outros meios  que não os nossos sentidos. Deixamos que o mundo passe por nós sem deixar-mos a nossa pegada na areia, simplesmente observando-o. Está tudo bem desde que no nosso minusculo espaço em redor o ar condicionado esteja agradável.
Amamos artificialmente, envolvemo-nos o quanto baste para que a relação seja aquilo que o mundo espera de uma relação, tranquila. Dançamos timidamente, corando quando o volume do rádio é impossível de manter baixo (apetece mesmo, mesmo, mesmo berrar aquela canção, ainda que estejamos no meio do trânsito), ou quando todos à nossa volta estão parados. Vivemos amorfamente procurando apenas um conforto momentâneo, esquecendo que a alegria se procura para além da nossa "bolha" pessoal.
Os vdros que erguemos à nossa volta não nos deixam esticar a mão, mas não nos deixam, também, sofrer. E aqui surge um cruzamento, sem possibilidade de seguir em frente (excepto, está claro, naqueles dias em que o álcool inventa novos caminhos ou convence de que é possível atravessar paredes); é inevitável optar pelo conforto ou pela emoção, é fatídico escolher se permanecemos dentro do carro ou se arriscamos "sentir" o mundo.
Diz uma música que me emociona (vide Many of Horror da autoria dos Biffy Clyro), que duas pessoas têm de chocar para ficar juntos. No amor chocamos de menos, erguemos o vidro do conforto, esquecemos a emoção de cada segundo em que vivemos intensamente cada sentido, cada odor, cada textura, cada sensação.
Diz a minha alma que vejo demasiadas tentativas de controlar o ambiente, de o dotar de elementos confortáveis, planeando cada dia, cada momento ao mais exaustivo pormenor. Vejo demasiados atentados à emoção, eliminando a surpresa; expectamos em demasia, trabalhamos arduamente para que cada momento saia na medida exacta do que perspectivamos.
Dizem os meus olhos que as mãos deixam de rejubilar ao toque, que o nariz adormece perante os mais inebriantes odores, que a alma deixa de trautear aos acordes de músicas magníficas, que o coração deixa de palpitar na eminência de emoções fortes. Tudo porque entre nós e o mundo há uma barreira que coloca em estado de coma os nossos sentidos.
Amigos, amigas, pessoas à beira de qualquer praia, à beira de qualquer emoção, tenham a bondade de abrir a porta do carro, seja num dia solarengo, seja num dia chuvoso. Sintam o calor na face, sintam a chuva refrescante, vejam as ondas no seu esplondor glorioso, sintam a vida TAL E QUAL ELA É.
Amem sem barreiras, vivam sem o raio do ar condicionado (atentem bem no nome, o ar já está condicionado) que só vos dá um conforto fútil, breve, sem sentido.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Home sweet home: Serão as paredes, afinal, doces?

Nas palavras imortalizadas pela cativante balada de Chris Daughtry todos nós percorremos um trilho, que por mais tortuosos sentidos tome, leva-nos sempre até à nossa casa. "i'm going home, to the place where i belong", grita a plenas pulmões o música, grita em plenos pulmões o nosso espírito inquieto.
Parecendo saído de um qualquer drama cinematográfico, alguém, um destes dias (não importa quando, pois o passado torna-se em presente sempre que o recordo) faz da sua surdina um grito audível, exclamando "tenho saudades de casa". Momentos depois suspirou pela última vez, o ar evaporou-se de um corpo já frágil, o sangue gelou em veias cansadas de um vida de frenesim, o coração repousou de um ritmo incansável, acelerado pela alegria ou pelo medo, adormecido pela tristeza ou pelo conformismo.
O que buscamos nós na vida? Ser felizes? Sem dúvida; Sentirmo-nos realizados? Claro; Alcançar um passado digno e um futuro risonho? Certamente. Mas a vida é cheia de turbilhões de sentimentos, de eventos, de acasos. Que nos testam, que nos magoam, que nos ferem com a cruel verdade de que nem tudo é possível.
E se a vida é uma espera, é também uma indubitável verdade que é também uma fuga. E corremos, meus amigos, todos na mesma direcção: para casa. É lá a nossa segurança, o nosso abrigo, o nosso "botaão de pausa" num filme sempre em rodagem, tantas vezes depressa demais para que sequer consigamos ler as legendas (ainda que não ler as legendas possa ser igualmente um problema resultante de vermos o filme perto demais, nada que ver o filme ou qualquer questão na vida 2 passos atrás, não resolva)
Mas onde é a nossa casa afinal? Serão as 4 paredes que nos dão abrigo de uma Natureza jocosa e irónica? Será um local? Ou terá algo para além de uma dimensão física? A casa não é construída de tijolos, de telhas, de cimento (de maior ou menor consistência, directamente proporcional ao empenho e consciência do construtor), é constituída por sentimentos, abraços, sensação de segurança e de pertença. O lar, mais do que uma dimensão visível é uma sensação, e o que procuramos é, no fundo onde pertencemos.
Não há melhor exemplo do que a história (e não estória como alguns novos inventores do português procuram impingir, aliás mais do que a eles, respeito todos os que tiveram a bondade de me ensinar o dom da escrita) dos 3 porquinhos e do lobo mau. Ora vamos então por partes.
Resumidamente 2 dos porquinhos foram preguiçosos, ergueram casas frágeis. Um outro porquinho ergueu uma casa mais sólida, cheio de brio e labor. Eis chegado o lobo mau (ainda enfartado ou não após o belo deguste da avózinha do Capuchinho Vermelho), que, obviamente não tendo hábitos de fumador inveterado e conservado um invejável fôlego, deita abaixo as casas frágeis, restante a casa sólida como porto de abrigo.
Injustiça N.º1: obviamente a casa de tijolo foi mais demorada a construir, logo caso o logo lá tivesse ido primeiro, provavelmente estaria ainda nas suas fundações.
Injustiça N.º2: sendo a última a ser visitada, a casa sólida sofreu um sopro bem menos conseguido. Afinal não há fôlego que resista, nem mesmo do melhor alpinista ou mergulhador de apneia.
Injustiça N.º3:alguém quer fazer passar a ideia de que só uma típica casa de tijolo é segura, quando há séculos o ser humana habitou em casas de gelo, palha e afins materiais.
Alguém questionou quem seria o porquinho mais feliz? Porque razão tem de ser a casa física mais sólida a proporcionar a maior felicidade?
Mais do que qualquer condição física, a nossa casa são os nossos lados. Aqueles que amamos, respeitamos, desejamos, são o nosso tecto, as nossas janelas, cada rodapé, cada ombreira da nossa vida.
Mais do que uma cozinha reluzente, mais do que uma casa-de-banho (mas afinal só se lá toma banho?...) admito que casa-de-fazer-necessidades se tornava um nome pouco apelativo) luxuoso, mais do que um quarto repleto de mordomias e uma sala-de-estar (e não é qualquer sítio uma sala de estar? basta lá estarmos e ser uma sala...) repleta de decorações inúteis, acariciadas até ao tutano pelo cotão e seu amigo intimo pó, importa ser feliz.
Um qualquer sítio será o nosso lar se lá estivermos felizes. Mas a função do lar não é só proporcionar conforto. Aliás mesmo a mais bela casa se torna obsoleta, nos cansamos dela se deixarmos que esmoreça o encanto inicial de quanto metemos o primeiro pé dentro dela.
Eventualmente o lobo acabaria por conseguir entrar na casa sólida, pois habituados ao sentimento de segurança, os porquinhos descurariam investir no lar. Iriam acomodar-se e em breve tudo seria melhor que o seu lar.
Para muitos a acomodação à casa, leva a que o seu lar seja transferido para um bar próximo, para o emprego, para os braços de um qualquer amante. A casa traz segurança, traz comodidade, mas não é o lar.
O lar é doce, são os beijos de quem amamos, os sentidos abraços dos amigos, o amor da família, a adrenalina da aventura. Mas o lar é exigente também; agarrá-lo é um desafio, que atormenta a nossa tendência natural de acomodação.
Mais do que sentirmo-nos em casa, temos de nos sentir no lar. Mais do que descalçar os sapatos e colocar os confortáveis chinelos, há que amar o lar, fazê-lo sentir tão especial quanto nos faz a nós.
Saiam de casa, procurem o vosso lar. Alguém o procurou fora deste mundo, procurou algures num espaço que desconhecerei, mas a distância que cada um percorre depende dele próprio. O lar é cada esquina, cada momento, cada segundo, em que lutamos, em que sorrimos, em que dançamos, em que somos felizes.
Abram as portas, pois as 4 paredes que vos resguardarão da chuva apenas vos impedem de sentir a paixão de cada gota.
Façam da felicidade de cada momento o vosso lar, o sítio onde afinal, pertencem.
Home sweet home... para não esquecer, o doce apenas se sente quando já provamos o amargo. Requer-se luta, requer-se sofrimento, requer-se coragem para fechar a porta de casa e entrar nos portões escancarados do lar.

PS O meu respeito e solidariedade a todos os que têm de fazer da rua a sua casa. Não deixem de buscar o vosso lar.
Esta solidariedade está imortalizada de forma brilhante por Pedro Abrunhosa, não deixem de espreitar: http://www.youtube.com/watch?v=sqK7Ys155j4