segunda-feira, 22 de março de 2010

Será que vale mais um pássaro na mão que dois a voar?

A sabedoria popular é uma lei difícil de contrariar. Dita as suas próprias leis, cria dogmas, comanda expectativas. Antes de mais importa esclarecer aos mais popularuchos, não existem argálias, existem algálias. Sem grande nexo, mas é um estigma que me persegue constantemente, tal como é seguro o banho durante a menstruação, ou o efeito do antimicrobiano (vulgo antibiótico, para quem não ligue à morfologia da palavra) não é imediato Após este mini-desvendar de grandes mistérios da área da saúde (a merecer, sem dúvida, reflexão, um destes dias, num qualquer momento de libertação intestinal ou tão somente mental), vamos ao cerne da questão.
"Quem muito fala pouco acerta". Hummm... na verdade quem mais fala maior probabilidade tem de acertar. É uma lógica matemática bem simples.Na verdade tem igualmente maior probabilidade de errar. No entanto no arriscar está o desafio da vida, esconder-se da responsabilidade de decidir diminui o erro, mas amputa significativamente a possibilidade de êxito.
"Grão a grão enche a galinha o papo" Ainda que aplicável há pobre galinha, não me parece que seja "humanizável". Levante o braço quem, de um suculento prato de feijões come somente um de cada vez? Aliás a galinha come apenas um grão de cada vez porque não foi dotado de um bico que lhe permita mais aventuras. Come grão a grão porque não tem escolhe, tal como nós comemos grão a grão da nossa existência quando esquecemos que existe variedade. O milho é confortável, o milho é seguro, o milho não foge ainda que se coma apenas grão a grão. O resto das coisas já talvez fuja.
"Quem espera sempre alcança" Ora aqui está algo que poderia ilustrar o tema deste blog... Esperar aumenta a possibilidade de alcançar, no entanto a espera prolongada diminui drasticamente a possibilidade de alcançar aquilo que verdadeiramente desejamos. Alcançar não é intrinseco a satisfação. Queremos mesmo esperar, deixando esvair-se por entres as mãos aquilo que realmente queremos? Agarramos tão firmemente à nossa espera, que acaba por nos escapar o que desejamos.
E agora, luzes no palco, rufo de tambores, dançarinas de ar angelical. É verdade, mais valem 2 pássaros a voar do que 1 na mão. Estranho? Bizarro? Diferente?
Ter um pássaro na mão é aprisioná-lo, é no fundo afagar apenas algo que nos é confortável. Ter dois pássaros na mão é disfrutar da sua liberdade, apaixonarmo-nos pela sua beleza. Preferimos o seguro, afinal o pássaro na mão não foge, não requer investimento. Basta apenas e só alimentá-lo grão a grão (recuperando palavras anteriores)
Um pássaro livre come o que quer, não o vulgar grão. Chega à nossa mão mas a forma de o seduzir muda constantemente, e num ápice deixa de querer voltar. É difícil, exige entusiasmo, empenho, paixão permanente.
O nosso carinhoso pássaro na mão deixa-se ficar, às vezes já nem o mimamos (será que o verbo mimar existe?..). às vezes dotamo-nos de um maquiavélico egoismo, e o prazer advém apenas de saber que temos ali algo de garantido.
Mas a beleza não está em conquistar o fácil, o resignado, pois no fundo, nem o nosso pássaro é feliz na nossa mão. Aprisionar é também deixar-se aprisionar, quanto mais não seja a uma estagnação amorfa, cinzenta.
Deixem partir os pássaros da vossa vida, deixem que ambas as vidas, vossa e do pobre pardal, águia ou galinha (esta viajando em classe executiva numa qualquer low cost). Persigam os pássaros livres, deixem embriagar-se na panóplia de cores com que pincelam os céus.
Não virem cara à sedução constante daquilo que é essencial para nós. A vida é feita de pássaros a voar, aqueles que importam pousarão na nossa mão. E partirão quando entenderem. É mais fácil seguir os ditos populares, mas o que há de mais bela do que ser feliz e ver felicidade.
Segurança e conforto? Inimigos declarados de ser feliz.
No final da vida surja a questão... Do que nos arrependemos? Que seja de muita coisa, execpto o que deixamos por favor.

PS- Por favor sugiram ditados populares, que os contrariarei garantidamente a todos=)


1 comentário:

  1. Caríssimo autor, considero uma tarefa mais difícil e inglória encontrar argumentos que fundamentem e acreditem os ditados populares, que o contrário!
    Isto porque, os ditados populares são demasiado generalistas, demasiado limitadores e demasiado arrogantes! Acreditam possuir em si mesmos todas as explicações para determinado fenómeno (que mesmo quando é do foro animalesco, tem sempre pretensões de servir de analogia para uma qualquer acção humana) e isso faz deles, uns idiotas convencidos!
    A título de exemplo vejamos "Água mole em pedra dura tanto bate até que fura"... Ora, isto quererá dizer que se insistirmos muito numa coisa, acabaremos por conseguir alcançá-la... Será isto verdade?! Não me parece... Chega uma altura em que insistir vezes demais deixa de ser a acção de um espírito nobre e profundamente determinado e passa a ser a acção de um indivíduo que não percebe que já caiu numa persistência estúpida! Acredito que desistir é sinal de inteligência... Mais que desistir, saber desistir, e quando desistir!

    Quanto à questão que surge no final da vida... Arrependimentos?! Deixo-os para os que consciente ou inconscientemente procuram uma muleta em que possam apoiar os seus sentimentos de culpa...

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