quinta-feira, 4 de março de 2010

Sala de(s) espera

A vida é uma sala de espera. Esperamos para ser felizes, esperamos para ser saudáveis, esperamos para sonhar, esperamos para nos desiludirmos.
Esperamos antes, esperamos durante, esperamos depois.
Esperamos o melhor, sem nunca deixar de esperar não ter o pior.
E depois de ter aquilo que esperamos, voltamos a esperar, tentando perceber o que significa a conquista de terminar a espera.
A espera confunde-se vezes de mais com o desespero, e a sala de espera é onde se desespera;
Por um sonho, por uma esperança, por uma notícia má, por uma noticia assim-assim, pela próxima espera.
Nascemos esperando que no além encontraremos a vida perfeita, morremos esperando voltar a viver. Gozamos a felicidade, com a ansiedade de a espera ter acabado, sofremos com a tristeza, agonizando na espera que nunca mais termina.
Não fujo à regra, espero algo. Espero nunca deixar de esperar, pois a espera comanda o sonho, a ansiedade de querer mais, o nervosismo do desconhecido. Pois está claro que a espera mantém o enigma da imprevisibilidade: esperar não é sinónimo de conseguir, de concretizar, e muito menos é parceiro íntimo de o resultado ser aquilo que...esperamos.
A diferença da minha espera é não ser muda ou tão pouco, silenciosa. É uma espera ruidosa. Palpita o coração, saltitam as palavras.
Quanto ao coração poderá confundir-se com uma qualquer doença menos feliz (como se houvesse alguma boa), mas espero que não. Já as palavras são um grito mudo, mas barulhento da minha espera.
Espero ao lado de tantos outros, espero sozinho, espero em cada canto e quando me vejo sem esperar, desejo...esperar.
Espero a hora de saída do emprego, espero depois voltar. Espero amar e ser amado. Espero vencer e ser melhor . espero saborear e nunca ficar cheio. No fundo...espero.
Mas qual o segredo para esperar? Haverá um bom esperar?
Há um segredo! (e os sinos celestes tocam, ou, numa questão de gosto pessoal, afinam-se as guitarras e perfilam-as as mesas de mistura). O segredo é o que se faz durante a espera.
Uns lêem revistas (como quem diz, enchem a espera de trivialidades), outros pensam naquilo que os espera (candidatando-se a eternos desiludidos ou a pérpetuos não-realizados). Outros ainda ensaiam para o final da espera (insinuando-se a prémios de péssima representação), ou questionam a espera alheia (tal é o magnânime interesse da sua própria espera). Raros, aproveitam a própria espera, desfrutam da sua própria sala de espera, entregam-se à imprevisibilidade da espera, e arriscam-se no fundo, a serem felizes.
E ser feliz implica deixar de esperar? Ou implica esperar mais, continuar a sonhar?
Esperamos saber a resposta, ou esta será mais uma espera?
Não há respostas, há opiniões; há a espera pelo momento em que mais do que esperar passamos a contemplar, aí acaba a espera, mas também a vida, pois esperar é querer, e querer é viver.
Nestas linhas deixo a minha espera, deixo a espera dos outros, esperando simplesmente aproveitar a sala de espera. Nestas linhas deixo um pouco de mim, sem falar de mim, deixo os meus olhos (astigmatas, mas sinceros), os meus pensamentos (os não sujeitos a censura), as esperas com que me vou cruzando.
Ler revistas? nahhhhhhhhhh. É demasiado interessante a sala de espera

1 comentário:

  1. Gostei imenso do que li, da forma como abordas a perspectiva do conceito de espera, tornando-o num conceito proactivo. A espera torna-se, nas tuas palavras, sinónimo de cinética, quiçá a força motriz que nos pode conduzir à realização pessoal... Cabe a cada um nós saber (como) esperar. A continuar assim,acho que vou ocupar parte do meu tempo de espera por aqui =)... Jinhos _CrisR_

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