sexta-feira, 12 de março de 2010

Porque é que os cães perseguem os carros?...

As respostas da vida não são difíceis de encontrar; basta, no fundo, fazer as questões certas. basta a subtileza de uma palara, de um olhar, e os mistérios do universo, guardados a sete chaves (e porque não um cadeado? Afinal, parece-me bem mais seguro que as ditas chaves), revelar-se-ão em catadupa.
Faço muitas perguntas, obtenho poucas respostas. Curioso é que as poucas respostas me conduzem sempre a mais perguntas, mas a busca é estimulante.
Perguntamos para nos esclarecermos ou para saber apenas qual a próxima pergunta? Suspeita-me que quando queremos ser esclarecidos, e pergunta sai mais ténue. "Porque não me queres ver mais? Porque não sou tão importante para ti como és para mim?" Tantas vezes questionada, tão poucas vezes em tom mais altivo do que em surdina ou silêncio comprometedor.
Mas aqui fica a questão do momento, afinal, porque é que os cães compulsivamente perseguem os carros?
Livros e livros esplicam as teorias do mundo, da vida, e de tudo e mais alguma coisa, mas dificilmente abordarão um assunto tão canino, e no entanto, tão humano.
O mais próximo que encontrei de ténue tentativa de explicação foi uma (diga-se desde já, lindissima) balada dos Snow Patrol, intitulada Chasing Cars.
Comecemos pelo inicio; os cães perseguem carros, mas a maioria tem um dono, também ele possuidor de algum veículo. Esse, não tem interesse para o amável canito. Mesmos os cães abandonados têm os seus veículos mais familiares, e esses... pouco ou nenhum interesse têm. Ora depois de marcar o terreno, e da emoção da perseguição, o que resta? O sentimento confortável de... "aquele carro? já o persegui, nada de especial" (e heis que dúvidas surgem sobre a minha sanidade mental, afinal já cito cães...)
E qual a transposição disto para os humanos? Aparte dos trocadilhos claro, de posições mais intimas envolvendo a ergonomia canina, ou a expressão tão algibeiresca de "mundo cão".
Ora a vida não é mais do que uma busca, uma perseguição constante de carros. Os nossos carros ,são, no entanto mais diferentes, mas relação que temos com eles é bem mais complexa.
Perseguimos sonhos e ambições, perseguimos o amor e a emoção, perseguimos sucesso e glória. Lutamos, suamos, choramos, sacrificamo-nos na busca do que perseguimos. E, quando a convicção é forte, e resistimos à tentação de desistir na adversidade, alcançamos os carros.
E no alcançar está o desafio. Alcançar leva a desfrutar, a conhecer e, por fim a habituar. Será este o ciclo inevitável, o fim apenas adiável, mas sempre cumprido?
Do "amo-te tanto que nem dormir consigo" ao "já não nos beijamos há 1 semana e pouca falta senti" cumpre-se este ciclo da perseguição e da habituação. Do "quero tanto ter a minha casa" ao "não partilhar o meu espaço é tão entediante", vai aquilo a que se chama "um tirinho" (quero imaginar que é dado por uma daquelas mini pistolas escondidas no cinto de ligas de uma menina de cabaré).
O cão é mais genuino, cansa-se do carro, que marca como seu (e não quero ccom isto dizer que devemos urinar em tudo o que nos é precioso), e parte em busca do próximo. Busca sempre como um doido, como se as buscas anteriores nem o tivessem marcado.
Nós não procuramos, acomodamo-nos. Pior do que urinar naquilo que temos, é mesmo deixar de lhes dar valor, fugir delas, deixar de lhes dar aquilo que merecem.
Queremos ser felizes, mas a felicidade que temos nunca parece suficiente, queremos ser saudáveis por há sempre quem transpire mais saúde, queremos ser doentes porque têm mais atenção e mimos, queremos ser idolatramos porque achamos ter algo de especial, queremos ser incógnitos porque falta a privacidade, queremos ser amados, queremos sonhar. Substituam o queremos por podemos, mas o tempo verbal é sempre o futuro.
O presente nunca nos chega. Ou chegará algum dia?
Haverá um dia em que correremos infinitamente atrás de um mesmo carro, que não nos acomodemos, e que possamos descobrir que cada dia tem uma nova face daquilo que perseguimos.
Um dia o cão correrá atras de um mesmo carro, que mesmo já tendo marcado, continua a seduzi-lo. Continua a fascina-lo, continua a deslumbrá-lo cada vez mais e após um rápido biscar de olhos lhe aprece ainda mais magnânime.
Este dia não chega, para a maioria das almas, inquilinas da Terra. Os carros passam depressa pela estrada, e mesmo não sendo o nosso sonho, acomodamo-nos ao carro que temos ao nosso lado. Mas isso, não mais é do que uma urinadela de obrigação, mostrando que apenas é nosso.
Mas queremos mesmo que o seja?
Quem queremos que acorde ao nosso lado? Para que emprego queremos acordar todas as manhãs para ir? Que vida quero eu recordar no meu último suspiro? O que deixei de fazer ontem, anteontem, hoje, num qualquer momento? Se a vossa resposta está no presente, são uns belissimos e sortudos cães.
Se a resposta é "não faço a mesma pequena ideia porque me deito ao lado desta pessoa, o meu emprego é confortável, e deixei de fazer inúmeras coisas mas estou seguro" então deixem de ser goden retrievers de humor depressivo, deixem de ser cobardes que nem...gatos.
A vida perseguição, perseguindo sempre mais até encontrar o nosso sonho. Persigam como se não houvesse amanhã, persigam como se não houvesse sobretudo um ontem (quantos pobres cães atropelados, mas que a vontade férrea compele a perseguir), persigam até encontrar não o conforto mas o gosto por acordar a cada dia.
Sejam cães, os carros esperam-vos.

PS- Porque adoro cães, defenderei sempre a sua nobreza. por favor consultem www.apca.org.pt

3 comentários:

  1. Em todo este "profundo" texto chamou-me a atenção a associação feita entre a cobardia e, esses tão distintos animais que são, os gatos!
    Correndo o risco de parecer uma Margarida Rebelo Pinto a constatar o óbvio ou a reproduzir um lugar comum como se fosse a descoberta científica do século, direi que para mim os gatos representam essencialmente um espírito livre!
    Não correm atrás de automóveis, mas perseguem igualmente objectivos... Apenas utilizam uma metodologia mais subtil, e mais inteligente! Quantas vezes não os encontramos no parapeito de uma qualquer janela com o olhar mais triste do mundo, a fitar a vida lá fora, por detrás daquela janela, onde alguém os obriga a permanecer?! E quantas vezes não conseguem assim uma curta (ou mais demorada) viagem às imediações da casa?! Também miam é certo, mas não correm incessantemente para a janela, ou ficam por lá a bater com a cabeça, na esperança de que assim, mais cedo ou mais tarde, ela se abra!
    Pergunto-me se a cobardia que o autor do texto atribui aos gatos será devida ao facto destes não serem fidelizáveis... Ou como se diz vulgarmente, de não conhecerem o dono!
    A palavra cobardia utilizasse essencialmente para definir falta de força, coragem, determinação para enfrentar alguma coisa... Nesse sentido, que se recusam os gatos a enfrentar? Serão os gatos cobardes porque se recusam a ser servos fiéis de uma única pessoa, durante toda a vida? Porque se recusam a viver rodeados das mesmas pessoas por toda a vida, sem protestar? Porque se recusam a ser amistosos para as visitas lá de casa, e assim cumprirem o seu dever de bichinho de estimação?
    Acredito que eles são, pelo contrário, muito corajosos, por conseguirem viver sem comodismo, por conseguirem mudar, mesmo quando antes acreditavam ter tudo, por conseguirem arriscar para tentar sempre melhor, por não serem simpáticos só por terem medo da rejeição... Por serem eles próprios, sempre a olhar para a frente, sem ficar preso pelo que está atrás!
    Não acredito que virem costas aos problemas, apenas não perdem tempo das suas vidas a investir na procura de soluções, que já sabem de antemão que serão meramente precárias!

    Porque adoro gatos, defenderei sempre a sua nobreza! :)

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  2. Antes de mais recomendo vivamente o mestre do lugares comuns, descritos e relatados de uma forma que parecem efectivamente uma descoberta cietífica. Estimado(a) anónimo(a) não deixes de espreitar alguma obra de Haruki Murakami.
    Gatos... não pretendia de todo insultar tão nobre ser, não era a miau (ou minha) intenção.
    No entanto não deixei de me voltar a questionar sobre porque os retratei como conformados ou preguiçosos. Têm virtudes, aliás a pouca disposição para seduzir a simpatia é uma delas. Ou seja, não mostrar uma sofriguidão por agradar às visitas lá de casa, só demonstra uma certeza na sua personalidade.
    No enatnto, o encosto ao parapeito de uma janela não pode ser visto como uma virtude. Não correm atrás da novidade, e a verdade é que se habituam à mesma pessoa. Mais comodismo que isto?
    Porque se perdem os cães tantas vezes? Porque são tantas vezes enganados numa qualquer berma de estrada, deixados ao abandono? Porque correm sempre atrás de algo, há sempre mais um carro para perseguir. O carro do seu passeio ou o seu parapeito de janela habitual limitam em demasia um espiritio livre.
    A vida tem a sua riqueza na espontâneadade, os gatos ponderam demais. Os cães disfrutam da impuslividade, correm como se fosse a primeira vez, como se não houvesse uma próxima.
    cães e gatos á parte, não deixes de perseguir o carro que mais reluzir na tua vida.
    Afinal de contas, também podemos ter um canário=)

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  3. Prezado autor, após passar em revista alguma da obra do escritor sugerido, parece-me que, mais tarde ou mais cedo, não deixarei de fazer uma leitura mais aprofundada do livro "Dance, Dance, Dance"... Onde não sei se existem lugares comuns, mas me deixou intrigada a certeza da existência de uma dimensão semi-kafkiana (desde "A Metamorfose" que este autor e o seu pensamento cativam a minha atenção).
    E, se de lugares comuns falamos, aproveito para aconselhar uma leitura descontraída d' "O homem que queria ser feliz", de Laurent Gounelle. Este livro, com um tipo de escrita muito simples e "quotidiano", permite-nos envolver numa atmosfera que transpira paz e harmonia, sentindo-nos por instantes no Bali, a ser observados e dissecados pela sabedoria de um mestre. Parece-me a leitura ideal para um fim de noite, em que, sem perceber bem porquê (ou sabendo exactamente porquê), chegamos a casa despertos e com uma estranha vontade de não desperdiçar o que resta da noite a dormir!
    Voltando agora aos cães e gatos... Parece-me que o autor fez uma clara confusão num aspecto crucial. Não se pode comparar o estilo de vida de um gato, que está encerrado dentro de uma habitação (daí a limitação da janela), com o estilo de vida de um cão vadio, ou de um cão que corre atrás de carros, nos momentos de liberdade que o seu dono lhe concebe, na ida à rua do costume. Assim, se considerarmos que temos cães e gatos na rua, sem que nenhum deles tenha janelas que lhes prendam os movimentos e as vontades... Que vemos?! Vemos cães que correm desalmadamente (ou pelo contrário, cheios de alma) atrás de um qualquer carro, e vemos gatos em passeio autónomo e independente pelas ruas. Não posso concordar que os cães tenham um espírito mais livre que os gatos, mas aceito que a estes últimos falte alguma noção de apego. No entanto, também eles são largados em bermas de estrada, com a diferença que o seu orgulho e dignidade não lhes permitem desatar a correr atrás do carro que acabou de os abandonar, porque no fundo sabem que não precisam dele... Mesmo que não cheguem a encontrar nenhum outro carro que reluza mais que os outros, sabem que não precisam de um carro para serem felizes... E assim sendo, para quê correr?!

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