terça-feira, 9 de março de 2010

O preço da mentira...

"O seu familiar está melhor"... "Não posso ajudar, aquele compromisso é inadiável"... "Claro que gosto de ti...". A vida torna-se com frequência numa vitrine de mentiras. A diferença entre o pensamento (felizmente secreto e cumplice somente com o coração) e as manifestações continua a cifrar-se numa distância considerável.
Porventura o Homem chegou à lua (e quem não anda lá constantemente?...), mas esse distância foi transposta apenas no espaço e não na dicotomia verdade/mentira.
Mas porque mentimos? Porque naquela fracção de milésimos, mais do que lidar com a mentira, temos receio maior de lidar com a verdade.
Quantas verdades se recordam de ter dito? Um sem número delas, concerteza, mas nem são relevantes. Afinal as verdades não eram dificeis de lidar nesses momentos.
E quantas mentiras? Parecem todas elas gravadas, qual tatuagem dolorosa, pois recordam-nos do medo, do nervoso, da ansiedade, de ser descobertos, de ser desmascarados, de ter de lidar com 2 verdades: aquela de que fugimos e evitamos, e a verdade que parimos numa gestação breve, de sermos mentirosos.
As mentiras, as omissões, as deturpações são uma fuga, uma espera. Fuga à verdade, espera que a realidade se torne mais confortável de viver.
Mentimos para fugir dos outros ou para fugir de nós próprios? Mentimos para ocultar a verdade, ou mentimos para a negar a nós mesmos?
Pegando numa trágico e clasíco clichê cinematográfico, imaginemos um doente em estado crítico (popularmente, às portas da morte, ou à janela, conforme a agilidade). O médico ou o enfermeiro que encaram a família tendem a suavizar, a amenizar, a dar esperança, no fundo.. a mentir? Será uma mentira válida? Haverá porventura uma mentira piedosa, isenta à crítica? Ou esta mentira será para evitar lidar com o sofrimento alheio? Evita concerteza um pranto espontÂneo, incómodo de lidar.
Haja verdade, haja sinceridade, haja coragem. Ser verdadeiro, no entanto, e nesta mesma situação não é ser arrogante. É o mais vendido produto televisivo, este engodo de que ser verdadeiro é ser grosseiro ou arrogante (e já agora requer uma barba de meia duzia de dias e uma bengala de estimação). ser verdadeiro é ser sincero, com a situação, connosco, com os outros.
Excluo que nesta situação de portas ou portinholas ou frestas da morta, não haja uma milagrosa cura. Aí mais do que a mentira, há a mentira orquestrada. Ou então estamos mesmo perante um filme hard-core, onde pela milionésima vez se explora a imagem da enfermeira "safadona". Milagres, só Jesus, e nem ele os queria divulgar. Teve ao menos a coragem de não os negar.(referências biblicas e alusão a pornografia juntos dá um cocktail, estranho, mas também digo-vo que já bebi coisas piores)
E os intermináveis affairs, casos amorosos e enredos novelescos? Aí sim rejubila a mentira.Mas porque mentem as pessoas? Para se encontrar com outra? Para manter uma relação que não os satisfaz?
Acima de tudo mentem a eles próprios... "Fui a tal sítio, ter com o tal grupo de amigos, fazer tal coisa" A mentira nota-se quando começa a surgir uma história elaborada, pois a verdade tem tudo para ser simples.
"Gosto de ti, não sabia bem o que estava a fazer, não volta a acontecer". Citando um autor de origem anglo-saxónica: BULLSHITTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTT.
Vamos decifrar: "Estou a mentir a mim próprio, é certo que errei, mas se me auto-comiserar pode ser que esqueça o pulha que sou, assim não tenho de lidar com o facto de ter traído o que sentes por mim" ou "não sou nada feliz, no fundo tentei apenas sabotar a nossa relação porque não a consigo terminar". Mentimos porque não sabemos lidar com a verdade, porque no fundo temos aquele gostinho suicida de ser descobertos. Caso não o tivessemos, não mentiamos.
A verdade às vezes parece-nos demasiado simples, não atrai a empatia alheia, muito menos as suas atenções. Alguém precisa de uma pequena ajuda, aquela mesma pessoa que já esteve ao nosso lado tantas vezes. "Podes ir amanha trabalhar por mim?". (A) "Não, sinceramente não me apetece" ou (B) "Tou cheio de trabalho, e problemas de isto e daquilo, eu é que preciso de ajuda". A resposta define-vos.
Enquanto esperamos mentimos, fugimos de nós próprios, fugimos e olhar nos nossos olhos, na nossa alma.
Pois não há mesmo mentiras misericordiosas, não há mentiras menores, não há omissões (palavra janota e bem vestida para nomear também a mentira). Há apenas verdade, e a falta dela.
Assustem-se revistas cor de rosa, os amantes já não mais mentiram. "tenho namorada mas estou aqui contigo, importaste?". Assustem-se médicos e enfermeiros "diga-me a verdade, é a melhor maneira de me ajudar". Assustem-se caros amigos humanos, perderão amizades (mas que raio de amigos eram se mentiam), perderão empregos (haverá sempre os renitentes há verdade, obstinados no seu egocentrismo), mas ganharão a verdade.
A verdade é simples, mas não é por isso que deixa de poder ser desfrutada. Porquê sunquick de Laranja quando a laranjeira está ao vosso alcance?

2 comentários:

  1. Hmmm... Mentiras! Esses subterfúgios que já todos usámos um dia (vários dias, diria eu...) e que trazem ao corpo e ao espírito um misto de satisfação com desconforto... Satisfação por não termos visto nos olhos de alguém a frustração, a desilusão, a tristeza, a mágoa que as nossas palavras sinceras iriam causar, caso contrário não teríamos mentido, e desconforto por nos sentirmos uns hipócritas, que tantas vezes apelamos a que não nos mintam, que sejam sinceros, porque é assim que deve ser e depois nos vemos no outro lado, a fingir, omitir, enganar, ludibriar, mentir!
    Mas será que mentimos mesmo por compaixão, para não magoar os outros? Não será a mentira apenas um ímpeto egoísta que nos permite evitar situações constrangedoras e desagradáveis? Acredito que o fazemos por nós e não pelos outros... E as primeiras vítimas somos nós, tantas vezes envoltas em enredos de telenovela, com tanta história cruzada e profundamente "floreada", e a acreditar que estamos bem assim... Que a mentira faz parte da vida, que sem ela as diferenças entre os seres humanos simplesmente não seriam conciliáveis. Desengane-mo-nos, se mentimos não estamos bem... Na relação com o outro a quem "tivemos" de mentir e connosco. Depois da mentira vem o comodismo, o confortável "deixa andar"... Antes assim que pior, antes o certo que o incerto!
    Deixe-mo-nos de mariquices e arrisquemos... A felicidade anda por aí, apenas espera que não tenhamos medo de a procurar... Para finalmente a encontrar! :)

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  2. O que vou dizer não nega necessariamente o que foi dito anteriormente apesar de o parecer: o mundo não é a preto e branco a nossa realidade é feita de uma multiplicidade de cores e não são apenas duas notas que dão musica à nossa vida. Dividir a realidade em bem e mal, verdade e mentira é esquecer que existe a duvida, a incerteza e todo uma realidade que desconhecemos sobre nós proprios e o mundo. Além disso esquecemo-nos frequentemente que comunicamos muito por palavras, que nos obrigam a categorizar a realidade e dificultam a tradução da totalidade que é a realidade.
    Por fim gostava de acrescentar uma frase que ouvi do maestro Benjamin Zander, sobre aquilo que dizemos e que me parece fazer sentido no decorrer do que foi dito anteriormente: "I will never say anything that couldn’t stand as the last thing I ever say".

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