sábado, 6 de março de 2010

A liberdade de se aprisionar

Liberdade! O que há de melhor? Lutas intermináveis por este valor, mensagens infinitas sobre este ideal. Lberdade para sonhar, liberdade para viver, liberdade para decidir, liberdade para sofrer e para desiludir. No fundo liberdade para ser livre.
No entanto sendo livres, optamos vezes demais por não o ser. É comodo ser apenas livre no pensamento, na ideologia, e não nas acções.
Numa qualquer sala de espera de um qualquer hospital acumulam-se pessoas livres, pelo menos na teoria. Adoeceram (num grau mais ou menos elevado, mas isso é questão para discussão mais alargada), e tomaram a liberdade de ir ao local de culto do doente (isso mesmo, o santuário das maleitas, vulgo Hospital). Liberdade que fica à porta, no fundo não procuram explicação, procuram apenas que alguém lhes diga o que fazer. Sorte das sortes, o papel autoritário que não explica e apenas transmite (após longos segundos ou minutos de matutação, conforme os anos de carreira), assente que nem uma leva no médico.
Abdicamos da liberdade, pelo conforto da obrigação de cumprir um esquema de uma panóplia de medicamentos e recomendações. "Alguém disse para fazer" é mais seguro do que "sou livre para perceber o que tenho".
Uns anunciam tornar-se revolucionários, procuram a explicação (seja uma busca exaustiva no espaço virtual ou numa qualquer revista cor de rosa), mas rapidamente esquecem as suas dúvidas. "Fui mal atendido" apregoam uns, "não fiquei esclarecido" sussurram outros, mas declamar a alto e bom som... tá quieto (e aqui se esgotou a riqueza do palavreado numa expressão tão tradicional)
No amor somos livres de escolher, de amar. Escolhemos a beleza de alguém, mais a sua personalidade inigualável. Somos livres, até ao momento em que a coisa dá para o torto ( brilhante raciocínio geométrico; se não está direito, está mal). Aí esquecemos a liberdade, aprisionamo-nos ao comodismo e se alguém tem de resolver algo que seja o outro, ele é que é o livre na relação.
Portanto não só rejeitamos a liberdade, como ainda a atiramos para longe quando não nos é conveniente.
Adoro as eleições, consigo demonstrar todo o meu poder sobrenatural adivinhando o que estará a dar em 3 canais em simultâneo das 19h às 23h. Aparte disso, torna-se um dia hilariante, um exercicio curioso sobre liberdade.
Cresci ouvindo a história de que no passado havia apenas um partido, sempre ganhador. Hoje mais do que ouvir, vejo vários partidos, mas poucos a votar. Abdicamos da liberdade de escolher, é mais fácil que o façam por nós. Agarramo-nos com afinco apenas à liberdade de reclamar, essa sim bem aguçada. Mas quem não vota,tem o direito de reclamar quando se escondeu na hora da decisão? Tem pois claro, é livre, mas nem sempre se lembrou disso.
Ora, amor, politica, saúde, reune-se aqui bom material de debate... Sou livre, posso decidir, posso comentar, posso inventar, iludir, posso fazer "o que me der na telha" (alguém tem cabelo cor de tijolo?...). Mas não me posso esquecer que a telha é parte do telhado e mais do que ser livre temos de merecer a liberdade.
Deixamos vezes de mais que pensem por nós, que sejm livres na nossa vez. Acomodarmo-nos é abdicar da felicidade, é também abdicar da tristeza, mas são os extremos que adoçam a vida. Num tom monocórdico ninguém disdruta a música, numa tonalidade cinzenta ninguém se deslumbra com a paisagem, num olfacto bolorento ninguém se enterna à embriaguez de um perfume.
No fundo não ser livre em cada passo é isso mesmo. Tornar as esperas constantes da nossa vida, um abdicar da liberdade, apenas um momento de pausa até nos ser dito como fazer.
Eu quero ir ao hospital para perceber o que tenho, para debater o que é melhor. Eu quero amar para me apaixonar por cada pedacinho do outro, e não vitimizar-me, lamentando em surdina (ou a alguma amante oportunista) o que não tenho ou poderia fazer. Eu quero votar, quero ser o jogador que conduz a equipa, quero ser o primeiro sugerir o que idealizo, no fundo quero ser livre... SEMPRE.
Ser livre é como ganhar. É preciso aguentar a responsabilidade, e querer sempre mais.
Volto à sala de espera, desepero pois a única liberdade é a dos entrometidos... "para que médico está?". E que tal... "porque raio gasto as perguntas todas na sala de espera para não me sobrar nenhuma no consultório?"

1 comentário:

  1. Divagando sobre a liberdade...
    Sou a minha própria prisão, o conhecido as grades que me afastam da liberdade do desconhecido...o medo o meu carrasco.
    Ser livre é uma escolha, não do que fazer ao jantar ou de que religião seguir, mas do que SER. Liberdade e ser livre para Ser.

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