terça-feira, 30 de março de 2010

Do primeiro ao último olhar: a homenagem aos (bons) enfermeiros

No primeiro suspiro de vida, deixando que o ar beije cada recanto dos seus pulmões, deliciando os olhos com a luz brilhante, uma imagem surge. A primeira que vemos, sejamos brancos, negros, amarelos, ateus ou fervorosos religiosos, ricos ou menos favorecidos, é, salvo acidentes de percurso, a de um enfermeiro que gentilmente nos recebe nos seus braços. É o primeiro que luta pela nossa vida, o primeiro a cuidar de nós, o primeiro que antes de nos apresentar à mãe, não deixa de nos emprestar um pouco do seu empenho em trazer mais uma vida ao mundo.
No final da nossa vida, quando o fôlego nos abandona, quando a luz já fugiu, levando as cores e as emoções, e cada recanto parece invariavelmente frio em demasia, uma imagem nunca desvanece. A última enfermagem é a de um enfermeiro, que não deixa de cuidar até ao último suspiro, e para além dele.
Dirão, neste último caso que há demasiadas excepções. Demasiadas almas encontradas caídas, já sem vida, mas na verdade todas fazem uma última visita por uma qualquer sala de reanimação de um serviço de urgências.
No entanto entre o principio e o fim, existe um inevitável e óbvio meio, e nele a luta pela vida é constante, mas a imagem é sempre constante. por mais cromos que as saquetas escondam, sai sempre a mesma imagem, e aqui acreditem que o cromo é dos valiosos, ainda que não lhe seja dado o devido valor.
Ser enfermeiro já significou dedicar-se à prostituição ou ao sacerdócio. Estranho? O que podem ter em comum? Ambas são antes de mais demandas a que poucos tem coragem de se dar (escrevo coragem com hesitação, mas não encontro palavra melhor). Esgota-se aqui a equivalência, pois em tudo o reto é diferente.
Não há posição ou cargo na sociedade mais sujeito ao estigma e à desconsideração. Antes de mais não há sacerdocio na enfermagem; ainda que haja muito boa vontade, todos merecemos um salário justo e todos (numa sociedade demasiado egoista e dependente de desperdicios, tão bem descrita pelo brilhante Murakami) temos as nossas obrigações monetárias. Depois, importa referir que não há subserviência, não há avental colocado para servir um qualquer outro profissional de saúde. Refira-se ainda que não sendo agricultor e recorrendo apenas a uma analogia popular, o enfermeiro percebe da horta, e para os mais distraídos, não há enfermeiro que não lute por uma licenciatura (falamos, óbvio da era moderna, que no caso português chgou apenas no pós revolução dos cravos) e que, enquanto trabalha, luta por mestrados, pós-graduações, especialidades e afins, com uma sofriguidão inédita no panorama nacional.
Mas o que faz afinal o enfermeiro? "Dá picas", "Mete argálias", "Faz o que o médico diz"?
Ora... caros watson espalhados por todo o imenso mundo, estais redondamente enganados (e porque não outra forma geométrica?Afinal o circulo, por ser fechado, incapacita mudar...).
Ser enfermeiro é abdicar de dormir noites junto da família, é esquecer os amigos em muitas ocasiões (afinal alguém tem de trabalhar nas noites de fim de semana). Ser enfermeiro é ter nas mãos a constante responsabilidade de cuidar os outros, sabendo que os seus erros são minutos preciosos para quem está doente. ser enfermeiro é esquecer o quanto arrastar corpos pesados podem danificar a nossa vida presente e futura, é ter um sentido de colocar antes aqueles que estão à sua guarda, que a si próprio.
Ser enfermeiro é olhar a prescrição de cada médico e perceber se é o melhor para o doente, é escutar tudo aquilo que vai para além das meras queixas circunstanciais. É ser astuto o suficiente para perceber o que leva alguém a um hospital (já alguém se questionou porque são enfermeiros a fazerem triagens? Pois não há profissional de saúde algum que consiga decifrar um doente sem análises e infindáveis auscultadelas e apalpadelas frias e inconsequentes). É ser paciente com o nervosismo das primeiras vacinas, é atender inúmeras pessoas cheias de pequenas dúvidas, numa sociedade que esqueceu o instinto natural do auto-cuidado.
Ser enfermeiro é ter o primeiro sorriso num doente que viu findado um prolongado coma, ser enfermeiro é dar a mão quando a dor sufoca o sopro de vida (e não é um mito, e não há ordenado que o pague), ser enfermeiro é ser o primeiro a levar a sova quando alguém perde a razão num qualquer hospital (também não é um mito, e bravos são aqueles que defendem a causa com tanta paixão), ser enfermeiro é sobretudo ser o último a receber o agradecimento, mas o primeiro a, no leito da doença, a saber que foi verdadeiramente importante.
Dirá o professor, o agricultor, o lojista ou o desempregado que são importantes. Todos são, mas por assim pensar é que sou enfermeiro, afinal por todos serem importantes é que dia após dia me entrego, me exponho, me arrisco, apenas e só pelo prazer de chegar ao fim do dia sabendo que fiz algo por alguém.
O eles aqui confunde-se em demasia com o eu, e o eu hoje está com o todos. Enfermeiros em luta, apenas por receber nem mais nem menos do que recebem aqueles que prestam um chamado serviço público. Nem mais, nem menos, apenas o mesmo. Ambição?´Deixamos para quem se passeia de bata e estetoscópio, bajulado pela sociedade demasiado cega.
Haverão estotoscópios na hora da morte? Não me parece, aliás antes de qualquer suspiro minimamente semelhante ao derradeiro, já não se avistará nenhum. Já enfermeiros, não faltarão.
Haverão estetoscópios que se preocupem com a refeição que invariavelmente não se come na totalidade? Apenas na altura de calcular as calorias por dia. Já enfermeiros insistirão sempre, tentando perceber o que atormenta a alma.
Haverá algum médico em início de carreira questionado por erros grosseiros? De certeza neste momento um enfermeiro é olhado com desconfiança e rispidez porque a agulha não acertou na veia à primeira vez.
Haverá algum farmaceutico que veja para além da sinergia medicamente/corpo humano?. Indubitavelmente enfermeiro algum deixará de se preocupar com o medicamento que deu, e se resultou.
Ser enfermeiro é estar presente, nas alturas em quer todos falham. Têm o seu espaço, mesmo quando esse espaço é longe de familia, diversão e vida saudável.
Lutem por aqueles que lutam por cada um de vocês, lutem por quem vos vê como pessoas e não apenas como uma enciclopédia mais ou menos extensa de diagnósticos. Lutem por quem estará ao lado depois de cada cirurgia, de quem estará quando o braço não responder, ou quando o coração falhar. Lutem por quem estará ao vosso lado sempre, e que apenas não diz "presente" mais vezes, porque somos poucos. Porque a nossa responsabilidade leva-nos a abdicar de horas de refeição, leva-nos a abdicar de um trabalho saudável e cuidamos cada vez de mais doentes.
Sou enfermeiro e lute, porque continuo apaixonado por cada dia em que entro num hospital, e posso fazer a diferença para alguém, por mais pequena que seja.

PS Defendo apenas os bons enfermeiros, pois não há situação na vida isente de quem a deturpe ou corrompa. Enfemeiros ou enfermeiras, não é importante o género usado neste contexto. Homens e mulheres lutam por igual e desempenham de forma tão brilhante a nobre profissão.


1 comentário:

  1. Ser enfermeiro é de facto ter um contacto privilegiado com a pessoa. É estar presente. É representar o doente na fragilidade da doença.

    É na verdade, uma profissão, diria mesmo uma postura de vida, tão valiosa, que vale por si própria. É única! E por isso mesmo não deve nem pode ser comparável. Os enfermeiros não são importantes porque são melhores que os médicos.

    O doente tem o papel principal. Cuidar bem implica, para além de profissionalismo e humanismo, sintonia e harmonia entre os vários (muito mais do que 2!) profissionais de saúde!

    Que sejamos todos bons no que fazemos! :)

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