segunda-feira, 22 de março de 2010

Dança como se ninguém olhasse...

Numa qualquer noite de fim-de-semana, os décibeis aumentam, os corpos juntam-se, a escuridão raiada de néon beija os intrépidos noctívagos, o álcool mistura cumplicemente com o sangue. As notas musicais dissipam-se, nota-se somente uma melodia vibrante, que se mistura com o palpitar do coração.
Alguém dança, é mais forte que qualquer um (qual voz vinda de uma esquizonfrenia salubre). Invade-nos o sentimento de que a música tem de ser dançada, tal como um telefone tem sempre de ser atendido. É um chamamento, chamesmo-lhe assim.
Invadidos por um sentimento mais ou menos profundo, de que naquele momento nada mais existe para além do néon e dos ritmos, não há quem resista ao arriscar de um passinho de ança. Uns, de copo na mão, mais recatados, esboçam uns acenos mais vigorosos de cabeça, nada de muito exuberante, aliás, quase despercebido. Afinal, as paredes musicais não são assim tão herméticas para o mundo exterior.
Outros dançam como se não houvesse amanhã, aliás dançam como se não houvesse ontem, pelo menos um ontem que lhes mostrasse a sua imagem mais bizarra. Outros ainda dançam mecanicamente, debitando com entusiasmo os passos aprendidos num qualquer canal juvenil.
Uns dançam sem técnica particular, apenas com as discretas incursões junto de alguém que os entusiasme. Outros dançam sentados, fingindo entusiasmo, ou mexendo apenas um pézinho batucante.
Mas será a técnica o mais importante? Como tudo na vida, nunca importa a forma como o fazemos, mas o sentimento que lhe colocamos.
Dançar, amar, esperar, viver... Entregamo-nos sem receios ou executamos tolhidos pelo mundo e pelas experiências?
Gosto de pensar em dança, sentir o ritmo vibrante de emoções, dançar como se não importasse mais nada, como se ninguém me estivesse a ver, danço, afinal, apenas para mim. Não há preocupações, não há regras, há apenas e só uma catadupa de passos que se encadeiam, não pensados, não ponderados, apenas sentidos.
O dia-a-dia é diferente. A dança entre os meandros do quotidiano são pensados, reflectidos, moldados sobretudo àquilo que parece o mais correcto. Dançamos sem esquecer que alguém olha para nós a cada instante, dançamos lembrano-nos de cada vez que a dança saiu mal, dançamos não com aquele olhar no infinito, mas olhando para a nossa vida, com preocupações substituindo as luzes cumplices.
Será que o álcool ou a semi-obscuridade explicam este dascinio nocturna e esta dança irreverente?
Não será qe os felizes na vida são os que dançam dia e noite? Não terá a dança sido inventada por alguém que não teve medo de ser diferente? Já agora não terá a corrida sido inventada por alguém que não queria apenas andar?
Porque teremos de amar, cumprindo um vicioso ciclo de paixão, que passa a amor e que desova apenas conforto e amizade? Porque teremos de trabalhar, passando pápeis à nossa frente, e esquecer que podemos fazer algo de diferente? Porque temos de viver como se um rigoroso crítico estivesse de placa em punho, ostentando pontuações para a nossa dança?
Tirando a fatiota mais hilariante ao estilo Dirty Dancing, proponho uma dança permanente. Dia e noite (e nos entretantos também)
Dançar a valsa do acordar, o hip-hop do trabalho, o rock do jantar, a house do deitar. Dançar como se ninguém olhasse, como se nenhuma dança menso conseguida (ou amor perdido, ou trabalho falhado) nos marcasse. dançar como se nada mais importasse para além do momento. Dançar em cada sala de espera, dançar em em cada esquina.
Deixar de dançar é mais confortável, não doem os pés, mas não palpita o coração. Deixar de dançar não cansa, o corpo adormece, a mente acomoda-se. E os passos simplesmente desaguam num lago de marasmo, numa poça de felicidade assim-assim (que tresanda a amorfo e comodismo)
A fila chegou ao fim, é a minha vez de dançar, 2 bebidas brancas e 14 euros? O preço da vida é simplesmente, dançar como se ninguém olhasse. Mas já olharam, afinal quem é que dança na fila (ou sala) de espera?

PS Já alguém bebeu uma bebida verdadeiramente branca? Porque raio o vodka translúcido, o whiskey dourado ou o rum límpido têm de ser chamadas bebida brancas? Que tal chamarem-lhes apenas e só bebidas?=)

2 comentários:

  1. Podemos definir, de forma muito sintética, a dança como um conjunto de movimentos corporais previamente estudados ou meramente improvisados. E, ora aí está uma dualidade interessante que reflecte grande parte das nossas opções diárias...
    A espontaneidade é efectivamente uma raça em extinção, e parece estar completamente em desuso. Ao ritmo alucinante a que as nossas vidas decorrem parece quase impossível como conseguimos ter tempo para “estudar” cada passo que vamos dar! Quando chegamos ao trabalho já sabemos exactamente por onde vamos começar (se não soubermos, temos a ajuda das preciosas agendas ou do calendário do Outlook para nos lembrarem), quando ligamos a alguém já sabemos exactamente o que queremos dizer (quantas vezes ligamos a alguém só porque sim, quando não temos nada para contar ou para querer ouvir, só porque nos apetece ouvir a sua voz?! E que estranho seria para a pessoa do outro lado perguntar “Sim! Porque estás a ligar?” e ouvir somente um “Porque sim, porque me apetece!”), quando chegamos a casa também já sabemos exactamente o que vamos fazer... Temos um planeamento rigoroso e não gostamos de fugir dele, porque isso implica desordem, ou pior, ter que reordenar, e isso exige esforço... Seguir o planeado à risca é tão mais confortável, mais cómodo, mas tão menos interessante, tão mais limitador e castrador!
    Em cada acção teremos obviamente momentos de espontaneidade, mas uma espontaneidade que tresanda a fabrico industrial, que está sempre condicionada, pelas nossas expectativas, pelas expectativas dos outros, pelo nosso poder ou falta dele, pelas nossas competências ou pela falta delas...!
    Esta dualidade leva-me à pergunta... “Estará para nós o copo meio cheio ou meio vazio?!”. Como há uns dias me diziam, danço e vivo com paixão, logo para mim o copo está sempre meio cheio, já que, mesmo quando o líquido tende a querer teimosamente evaporar-se, surge sempre algo ou alguém que decide entrar em simbiose com o copo e partilhar generosamente parte de si com ele, parte essa que acaba retida lá dentro, reequilibrando o nível de líquido.
    Haverá melhor sensação que dançar como se ninguém estivesse a ver?! Talvez... Quando encontramos alguém que não se limita a dançar ao nosso lado, mas que insiste em acompanhar o nosso ritmo, em partilhar a nossa alegria e em dançar também como se ninguém estivesse a ver...
    Diz-se por aí que não se ama alguém que não ouve a mesma canção... Eu diria antes que, não se ama alguém que não dança o mesmo som...

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  2. Dançar é sinónimo de expressão. O não recorrer ás palavras para nos expormos, tal como 1olhar lançado no momento certo ou o silencio tão precioso em algumas ocasiões!. É uma forma de expressão pessoal.

    Fechar os olhos, sentir a musica, o ritmo, a batida, a letra... cantá-la em playback ou a plenos pulmões. Mexer a cabeça, os braços, 1toque de quadris, as pernas... todo o corpo de 1forma mais ou menos elegante, mas sempre nossa. Deixá-lo fluir!
    Interagir com ninguém, com todos, com "aquela" pessoa ao som "daquela" musica (beijá-lo!)... o olhar, a cumplicidade!
    Abrir os olhos, olhar... não importam os que nos olham de volta. Olham mas não nos veem!
    A felicidade, a entrega, a alegria, o sorrir sozinha (ou lançar 1gargalhada), o corar na recordação de 1momento há mt esquecido e/ou recalcado...
    Somos nós rodeados de mts, mas por momentos somente connosco!

    Amar-se-á alguém que não dança o mm som? Interpretando a analogia (que adoro aliás) como alguém que não dança ao nosso ritmo, diria que não.
    Sintonia é necessária para acertar o passo e dançar toda a noite, todas as noites. Sem pisar de pés, afastamentos desnecessários ou embates desagradáveis e dolorosos.

    A noite termina (como sempre), saímos, voltamos para casa, para o trabalho, castrados na nossa liberdade pelas intransigências dos que nos rodeiam. Os olhares agora veem-nos, sabem, conhecem-nos... Voltam os sentimentos que guardámos lá bem num cantinho durante a noite. Sentimo-nos aprisionados, sufocados, observados... Q fazemos? Olhamos para a frente, acertamos o passo e dançamos com eles... =)

    A Vida dá-nos ritmos variados e cabe-nos dançar com ela. As lyrics somos nós que as definimos.
    Se o disco riscar, vamos lá dar aquele toque no aparelho (mais ou menos meiguinho!) ela recomeça e nos continuamos... a dançar ao nosso ritmo, nunca coreografados por outem!

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