terça-feira, 30 de março de 2010

Do primeiro ao último olhar: a homenagem aos (bons) enfermeiros

No primeiro suspiro de vida, deixando que o ar beije cada recanto dos seus pulmões, deliciando os olhos com a luz brilhante, uma imagem surge. A primeira que vemos, sejamos brancos, negros, amarelos, ateus ou fervorosos religiosos, ricos ou menos favorecidos, é, salvo acidentes de percurso, a de um enfermeiro que gentilmente nos recebe nos seus braços. É o primeiro que luta pela nossa vida, o primeiro a cuidar de nós, o primeiro que antes de nos apresentar à mãe, não deixa de nos emprestar um pouco do seu empenho em trazer mais uma vida ao mundo.
No final da nossa vida, quando o fôlego nos abandona, quando a luz já fugiu, levando as cores e as emoções, e cada recanto parece invariavelmente frio em demasia, uma imagem nunca desvanece. A última enfermagem é a de um enfermeiro, que não deixa de cuidar até ao último suspiro, e para além dele.
Dirão, neste último caso que há demasiadas excepções. Demasiadas almas encontradas caídas, já sem vida, mas na verdade todas fazem uma última visita por uma qualquer sala de reanimação de um serviço de urgências.
No entanto entre o principio e o fim, existe um inevitável e óbvio meio, e nele a luta pela vida é constante, mas a imagem é sempre constante. por mais cromos que as saquetas escondam, sai sempre a mesma imagem, e aqui acreditem que o cromo é dos valiosos, ainda que não lhe seja dado o devido valor.
Ser enfermeiro já significou dedicar-se à prostituição ou ao sacerdócio. Estranho? O que podem ter em comum? Ambas são antes de mais demandas a que poucos tem coragem de se dar (escrevo coragem com hesitação, mas não encontro palavra melhor). Esgota-se aqui a equivalência, pois em tudo o reto é diferente.
Não há posição ou cargo na sociedade mais sujeito ao estigma e à desconsideração. Antes de mais não há sacerdocio na enfermagem; ainda que haja muito boa vontade, todos merecemos um salário justo e todos (numa sociedade demasiado egoista e dependente de desperdicios, tão bem descrita pelo brilhante Murakami) temos as nossas obrigações monetárias. Depois, importa referir que não há subserviência, não há avental colocado para servir um qualquer outro profissional de saúde. Refira-se ainda que não sendo agricultor e recorrendo apenas a uma analogia popular, o enfermeiro percebe da horta, e para os mais distraídos, não há enfermeiro que não lute por uma licenciatura (falamos, óbvio da era moderna, que no caso português chgou apenas no pós revolução dos cravos) e que, enquanto trabalha, luta por mestrados, pós-graduações, especialidades e afins, com uma sofriguidão inédita no panorama nacional.
Mas o que faz afinal o enfermeiro? "Dá picas", "Mete argálias", "Faz o que o médico diz"?
Ora... caros watson espalhados por todo o imenso mundo, estais redondamente enganados (e porque não outra forma geométrica?Afinal o circulo, por ser fechado, incapacita mudar...).
Ser enfermeiro é abdicar de dormir noites junto da família, é esquecer os amigos em muitas ocasiões (afinal alguém tem de trabalhar nas noites de fim de semana). Ser enfermeiro é ter nas mãos a constante responsabilidade de cuidar os outros, sabendo que os seus erros são minutos preciosos para quem está doente. ser enfermeiro é esquecer o quanto arrastar corpos pesados podem danificar a nossa vida presente e futura, é ter um sentido de colocar antes aqueles que estão à sua guarda, que a si próprio.
Ser enfermeiro é olhar a prescrição de cada médico e perceber se é o melhor para o doente, é escutar tudo aquilo que vai para além das meras queixas circunstanciais. É ser astuto o suficiente para perceber o que leva alguém a um hospital (já alguém se questionou porque são enfermeiros a fazerem triagens? Pois não há profissional de saúde algum que consiga decifrar um doente sem análises e infindáveis auscultadelas e apalpadelas frias e inconsequentes). É ser paciente com o nervosismo das primeiras vacinas, é atender inúmeras pessoas cheias de pequenas dúvidas, numa sociedade que esqueceu o instinto natural do auto-cuidado.
Ser enfermeiro é ter o primeiro sorriso num doente que viu findado um prolongado coma, ser enfermeiro é dar a mão quando a dor sufoca o sopro de vida (e não é um mito, e não há ordenado que o pague), ser enfermeiro é ser o primeiro a levar a sova quando alguém perde a razão num qualquer hospital (também não é um mito, e bravos são aqueles que defendem a causa com tanta paixão), ser enfermeiro é sobretudo ser o último a receber o agradecimento, mas o primeiro a, no leito da doença, a saber que foi verdadeiramente importante.
Dirá o professor, o agricultor, o lojista ou o desempregado que são importantes. Todos são, mas por assim pensar é que sou enfermeiro, afinal por todos serem importantes é que dia após dia me entrego, me exponho, me arrisco, apenas e só pelo prazer de chegar ao fim do dia sabendo que fiz algo por alguém.
O eles aqui confunde-se em demasia com o eu, e o eu hoje está com o todos. Enfermeiros em luta, apenas por receber nem mais nem menos do que recebem aqueles que prestam um chamado serviço público. Nem mais, nem menos, apenas o mesmo. Ambição?´Deixamos para quem se passeia de bata e estetoscópio, bajulado pela sociedade demasiado cega.
Haverão estotoscópios na hora da morte? Não me parece, aliás antes de qualquer suspiro minimamente semelhante ao derradeiro, já não se avistará nenhum. Já enfermeiros, não faltarão.
Haverão estetoscópios que se preocupem com a refeição que invariavelmente não se come na totalidade? Apenas na altura de calcular as calorias por dia. Já enfermeiros insistirão sempre, tentando perceber o que atormenta a alma.
Haverá algum médico em início de carreira questionado por erros grosseiros? De certeza neste momento um enfermeiro é olhado com desconfiança e rispidez porque a agulha não acertou na veia à primeira vez.
Haverá algum farmaceutico que veja para além da sinergia medicamente/corpo humano?. Indubitavelmente enfermeiro algum deixará de se preocupar com o medicamento que deu, e se resultou.
Ser enfermeiro é estar presente, nas alturas em quer todos falham. Têm o seu espaço, mesmo quando esse espaço é longe de familia, diversão e vida saudável.
Lutem por aqueles que lutam por cada um de vocês, lutem por quem vos vê como pessoas e não apenas como uma enciclopédia mais ou menos extensa de diagnósticos. Lutem por quem estará ao lado depois de cada cirurgia, de quem estará quando o braço não responder, ou quando o coração falhar. Lutem por quem estará ao vosso lado sempre, e que apenas não diz "presente" mais vezes, porque somos poucos. Porque a nossa responsabilidade leva-nos a abdicar de horas de refeição, leva-nos a abdicar de um trabalho saudável e cuidamos cada vez de mais doentes.
Sou enfermeiro e lute, porque continuo apaixonado por cada dia em que entro num hospital, e posso fazer a diferença para alguém, por mais pequena que seja.

PS Defendo apenas os bons enfermeiros, pois não há situação na vida isente de quem a deturpe ou corrompa. Enfemeiros ou enfermeiras, não é importante o género usado neste contexto. Homens e mulheres lutam por igual e desempenham de forma tão brilhante a nobre profissão.


segunda-feira, 22 de março de 2010

Será que vale mais um pássaro na mão que dois a voar?

A sabedoria popular é uma lei difícil de contrariar. Dita as suas próprias leis, cria dogmas, comanda expectativas. Antes de mais importa esclarecer aos mais popularuchos, não existem argálias, existem algálias. Sem grande nexo, mas é um estigma que me persegue constantemente, tal como é seguro o banho durante a menstruação, ou o efeito do antimicrobiano (vulgo antibiótico, para quem não ligue à morfologia da palavra) não é imediato Após este mini-desvendar de grandes mistérios da área da saúde (a merecer, sem dúvida, reflexão, um destes dias, num qualquer momento de libertação intestinal ou tão somente mental), vamos ao cerne da questão.
"Quem muito fala pouco acerta". Hummm... na verdade quem mais fala maior probabilidade tem de acertar. É uma lógica matemática bem simples.Na verdade tem igualmente maior probabilidade de errar. No entanto no arriscar está o desafio da vida, esconder-se da responsabilidade de decidir diminui o erro, mas amputa significativamente a possibilidade de êxito.
"Grão a grão enche a galinha o papo" Ainda que aplicável há pobre galinha, não me parece que seja "humanizável". Levante o braço quem, de um suculento prato de feijões come somente um de cada vez? Aliás a galinha come apenas um grão de cada vez porque não foi dotado de um bico que lhe permita mais aventuras. Come grão a grão porque não tem escolhe, tal como nós comemos grão a grão da nossa existência quando esquecemos que existe variedade. O milho é confortável, o milho é seguro, o milho não foge ainda que se coma apenas grão a grão. O resto das coisas já talvez fuja.
"Quem espera sempre alcança" Ora aqui está algo que poderia ilustrar o tema deste blog... Esperar aumenta a possibilidade de alcançar, no entanto a espera prolongada diminui drasticamente a possibilidade de alcançar aquilo que verdadeiramente desejamos. Alcançar não é intrinseco a satisfação. Queremos mesmo esperar, deixando esvair-se por entres as mãos aquilo que realmente queremos? Agarramos tão firmemente à nossa espera, que acaba por nos escapar o que desejamos.
E agora, luzes no palco, rufo de tambores, dançarinas de ar angelical. É verdade, mais valem 2 pássaros a voar do que 1 na mão. Estranho? Bizarro? Diferente?
Ter um pássaro na mão é aprisioná-lo, é no fundo afagar apenas algo que nos é confortável. Ter dois pássaros na mão é disfrutar da sua liberdade, apaixonarmo-nos pela sua beleza. Preferimos o seguro, afinal o pássaro na mão não foge, não requer investimento. Basta apenas e só alimentá-lo grão a grão (recuperando palavras anteriores)
Um pássaro livre come o que quer, não o vulgar grão. Chega à nossa mão mas a forma de o seduzir muda constantemente, e num ápice deixa de querer voltar. É difícil, exige entusiasmo, empenho, paixão permanente.
O nosso carinhoso pássaro na mão deixa-se ficar, às vezes já nem o mimamos (será que o verbo mimar existe?..). às vezes dotamo-nos de um maquiavélico egoismo, e o prazer advém apenas de saber que temos ali algo de garantido.
Mas a beleza não está em conquistar o fácil, o resignado, pois no fundo, nem o nosso pássaro é feliz na nossa mão. Aprisionar é também deixar-se aprisionar, quanto mais não seja a uma estagnação amorfa, cinzenta.
Deixem partir os pássaros da vossa vida, deixem que ambas as vidas, vossa e do pobre pardal, águia ou galinha (esta viajando em classe executiva numa qualquer low cost). Persigam os pássaros livres, deixem embriagar-se na panóplia de cores com que pincelam os céus.
Não virem cara à sedução constante daquilo que é essencial para nós. A vida é feita de pássaros a voar, aqueles que importam pousarão na nossa mão. E partirão quando entenderem. É mais fácil seguir os ditos populares, mas o que há de mais bela do que ser feliz e ver felicidade.
Segurança e conforto? Inimigos declarados de ser feliz.
No final da vida surja a questão... Do que nos arrependemos? Que seja de muita coisa, execpto o que deixamos por favor.

PS- Por favor sugiram ditados populares, que os contrariarei garantidamente a todos=)


Dança como se ninguém olhasse...

Numa qualquer noite de fim-de-semana, os décibeis aumentam, os corpos juntam-se, a escuridão raiada de néon beija os intrépidos noctívagos, o álcool mistura cumplicemente com o sangue. As notas musicais dissipam-se, nota-se somente uma melodia vibrante, que se mistura com o palpitar do coração.
Alguém dança, é mais forte que qualquer um (qual voz vinda de uma esquizonfrenia salubre). Invade-nos o sentimento de que a música tem de ser dançada, tal como um telefone tem sempre de ser atendido. É um chamamento, chamesmo-lhe assim.
Invadidos por um sentimento mais ou menos profundo, de que naquele momento nada mais existe para além do néon e dos ritmos, não há quem resista ao arriscar de um passinho de ança. Uns, de copo na mão, mais recatados, esboçam uns acenos mais vigorosos de cabeça, nada de muito exuberante, aliás, quase despercebido. Afinal, as paredes musicais não são assim tão herméticas para o mundo exterior.
Outros dançam como se não houvesse amanhã, aliás dançam como se não houvesse ontem, pelo menos um ontem que lhes mostrasse a sua imagem mais bizarra. Outros ainda dançam mecanicamente, debitando com entusiasmo os passos aprendidos num qualquer canal juvenil.
Uns dançam sem técnica particular, apenas com as discretas incursões junto de alguém que os entusiasme. Outros dançam sentados, fingindo entusiasmo, ou mexendo apenas um pézinho batucante.
Mas será a técnica o mais importante? Como tudo na vida, nunca importa a forma como o fazemos, mas o sentimento que lhe colocamos.
Dançar, amar, esperar, viver... Entregamo-nos sem receios ou executamos tolhidos pelo mundo e pelas experiências?
Gosto de pensar em dança, sentir o ritmo vibrante de emoções, dançar como se não importasse mais nada, como se ninguém me estivesse a ver, danço, afinal, apenas para mim. Não há preocupações, não há regras, há apenas e só uma catadupa de passos que se encadeiam, não pensados, não ponderados, apenas sentidos.
O dia-a-dia é diferente. A dança entre os meandros do quotidiano são pensados, reflectidos, moldados sobretudo àquilo que parece o mais correcto. Dançamos sem esquecer que alguém olha para nós a cada instante, dançamos lembrano-nos de cada vez que a dança saiu mal, dançamos não com aquele olhar no infinito, mas olhando para a nossa vida, com preocupações substituindo as luzes cumplices.
Será que o álcool ou a semi-obscuridade explicam este dascinio nocturna e esta dança irreverente?
Não será qe os felizes na vida são os que dançam dia e noite? Não terá a dança sido inventada por alguém que não teve medo de ser diferente? Já agora não terá a corrida sido inventada por alguém que não queria apenas andar?
Porque teremos de amar, cumprindo um vicioso ciclo de paixão, que passa a amor e que desova apenas conforto e amizade? Porque teremos de trabalhar, passando pápeis à nossa frente, e esquecer que podemos fazer algo de diferente? Porque temos de viver como se um rigoroso crítico estivesse de placa em punho, ostentando pontuações para a nossa dança?
Tirando a fatiota mais hilariante ao estilo Dirty Dancing, proponho uma dança permanente. Dia e noite (e nos entretantos também)
Dançar a valsa do acordar, o hip-hop do trabalho, o rock do jantar, a house do deitar. Dançar como se ninguém olhasse, como se nenhuma dança menso conseguida (ou amor perdido, ou trabalho falhado) nos marcasse. dançar como se nada mais importasse para além do momento. Dançar em cada sala de espera, dançar em em cada esquina.
Deixar de dançar é mais confortável, não doem os pés, mas não palpita o coração. Deixar de dançar não cansa, o corpo adormece, a mente acomoda-se. E os passos simplesmente desaguam num lago de marasmo, numa poça de felicidade assim-assim (que tresanda a amorfo e comodismo)
A fila chegou ao fim, é a minha vez de dançar, 2 bebidas brancas e 14 euros? O preço da vida é simplesmente, dançar como se ninguém olhasse. Mas já olharam, afinal quem é que dança na fila (ou sala) de espera?

PS Já alguém bebeu uma bebida verdadeiramente branca? Porque raio o vodka translúcido, o whiskey dourado ou o rum límpido têm de ser chamadas bebida brancas? Que tal chamarem-lhes apenas e só bebidas?=)

sexta-feira, 12 de março de 2010

Porque é que os cães perseguem os carros?...

As respostas da vida não são difíceis de encontrar; basta, no fundo, fazer as questões certas. basta a subtileza de uma palara, de um olhar, e os mistérios do universo, guardados a sete chaves (e porque não um cadeado? Afinal, parece-me bem mais seguro que as ditas chaves), revelar-se-ão em catadupa.
Faço muitas perguntas, obtenho poucas respostas. Curioso é que as poucas respostas me conduzem sempre a mais perguntas, mas a busca é estimulante.
Perguntamos para nos esclarecermos ou para saber apenas qual a próxima pergunta? Suspeita-me que quando queremos ser esclarecidos, e pergunta sai mais ténue. "Porque não me queres ver mais? Porque não sou tão importante para ti como és para mim?" Tantas vezes questionada, tão poucas vezes em tom mais altivo do que em surdina ou silêncio comprometedor.
Mas aqui fica a questão do momento, afinal, porque é que os cães compulsivamente perseguem os carros?
Livros e livros esplicam as teorias do mundo, da vida, e de tudo e mais alguma coisa, mas dificilmente abordarão um assunto tão canino, e no entanto, tão humano.
O mais próximo que encontrei de ténue tentativa de explicação foi uma (diga-se desde já, lindissima) balada dos Snow Patrol, intitulada Chasing Cars.
Comecemos pelo inicio; os cães perseguem carros, mas a maioria tem um dono, também ele possuidor de algum veículo. Esse, não tem interesse para o amável canito. Mesmos os cães abandonados têm os seus veículos mais familiares, e esses... pouco ou nenhum interesse têm. Ora depois de marcar o terreno, e da emoção da perseguição, o que resta? O sentimento confortável de... "aquele carro? já o persegui, nada de especial" (e heis que dúvidas surgem sobre a minha sanidade mental, afinal já cito cães...)
E qual a transposição disto para os humanos? Aparte dos trocadilhos claro, de posições mais intimas envolvendo a ergonomia canina, ou a expressão tão algibeiresca de "mundo cão".
Ora a vida não é mais do que uma busca, uma perseguição constante de carros. Os nossos carros ,são, no entanto mais diferentes, mas relação que temos com eles é bem mais complexa.
Perseguimos sonhos e ambições, perseguimos o amor e a emoção, perseguimos sucesso e glória. Lutamos, suamos, choramos, sacrificamo-nos na busca do que perseguimos. E, quando a convicção é forte, e resistimos à tentação de desistir na adversidade, alcançamos os carros.
E no alcançar está o desafio. Alcançar leva a desfrutar, a conhecer e, por fim a habituar. Será este o ciclo inevitável, o fim apenas adiável, mas sempre cumprido?
Do "amo-te tanto que nem dormir consigo" ao "já não nos beijamos há 1 semana e pouca falta senti" cumpre-se este ciclo da perseguição e da habituação. Do "quero tanto ter a minha casa" ao "não partilhar o meu espaço é tão entediante", vai aquilo a que se chama "um tirinho" (quero imaginar que é dado por uma daquelas mini pistolas escondidas no cinto de ligas de uma menina de cabaré).
O cão é mais genuino, cansa-se do carro, que marca como seu (e não quero ccom isto dizer que devemos urinar em tudo o que nos é precioso), e parte em busca do próximo. Busca sempre como um doido, como se as buscas anteriores nem o tivessem marcado.
Nós não procuramos, acomodamo-nos. Pior do que urinar naquilo que temos, é mesmo deixar de lhes dar valor, fugir delas, deixar de lhes dar aquilo que merecem.
Queremos ser felizes, mas a felicidade que temos nunca parece suficiente, queremos ser saudáveis por há sempre quem transpire mais saúde, queremos ser doentes porque têm mais atenção e mimos, queremos ser idolatramos porque achamos ter algo de especial, queremos ser incógnitos porque falta a privacidade, queremos ser amados, queremos sonhar. Substituam o queremos por podemos, mas o tempo verbal é sempre o futuro.
O presente nunca nos chega. Ou chegará algum dia?
Haverá um dia em que correremos infinitamente atrás de um mesmo carro, que não nos acomodemos, e que possamos descobrir que cada dia tem uma nova face daquilo que perseguimos.
Um dia o cão correrá atras de um mesmo carro, que mesmo já tendo marcado, continua a seduzi-lo. Continua a fascina-lo, continua a deslumbrá-lo cada vez mais e após um rápido biscar de olhos lhe aprece ainda mais magnânime.
Este dia não chega, para a maioria das almas, inquilinas da Terra. Os carros passam depressa pela estrada, e mesmo não sendo o nosso sonho, acomodamo-nos ao carro que temos ao nosso lado. Mas isso, não mais é do que uma urinadela de obrigação, mostrando que apenas é nosso.
Mas queremos mesmo que o seja?
Quem queremos que acorde ao nosso lado? Para que emprego queremos acordar todas as manhãs para ir? Que vida quero eu recordar no meu último suspiro? O que deixei de fazer ontem, anteontem, hoje, num qualquer momento? Se a vossa resposta está no presente, são uns belissimos e sortudos cães.
Se a resposta é "não faço a mesma pequena ideia porque me deito ao lado desta pessoa, o meu emprego é confortável, e deixei de fazer inúmeras coisas mas estou seguro" então deixem de ser goden retrievers de humor depressivo, deixem de ser cobardes que nem...gatos.
A vida perseguição, perseguindo sempre mais até encontrar o nosso sonho. Persigam como se não houvesse amanhã, persigam como se não houvesse sobretudo um ontem (quantos pobres cães atropelados, mas que a vontade férrea compele a perseguir), persigam até encontrar não o conforto mas o gosto por acordar a cada dia.
Sejam cães, os carros esperam-vos.

PS- Porque adoro cães, defenderei sempre a sua nobreza. por favor consultem www.apca.org.pt

terça-feira, 9 de março de 2010

O preço da mentira...

"O seu familiar está melhor"... "Não posso ajudar, aquele compromisso é inadiável"... "Claro que gosto de ti...". A vida torna-se com frequência numa vitrine de mentiras. A diferença entre o pensamento (felizmente secreto e cumplice somente com o coração) e as manifestações continua a cifrar-se numa distância considerável.
Porventura o Homem chegou à lua (e quem não anda lá constantemente?...), mas esse distância foi transposta apenas no espaço e não na dicotomia verdade/mentira.
Mas porque mentimos? Porque naquela fracção de milésimos, mais do que lidar com a mentira, temos receio maior de lidar com a verdade.
Quantas verdades se recordam de ter dito? Um sem número delas, concerteza, mas nem são relevantes. Afinal as verdades não eram dificeis de lidar nesses momentos.
E quantas mentiras? Parecem todas elas gravadas, qual tatuagem dolorosa, pois recordam-nos do medo, do nervoso, da ansiedade, de ser descobertos, de ser desmascarados, de ter de lidar com 2 verdades: aquela de que fugimos e evitamos, e a verdade que parimos numa gestação breve, de sermos mentirosos.
As mentiras, as omissões, as deturpações são uma fuga, uma espera. Fuga à verdade, espera que a realidade se torne mais confortável de viver.
Mentimos para fugir dos outros ou para fugir de nós próprios? Mentimos para ocultar a verdade, ou mentimos para a negar a nós mesmos?
Pegando numa trágico e clasíco clichê cinematográfico, imaginemos um doente em estado crítico (popularmente, às portas da morte, ou à janela, conforme a agilidade). O médico ou o enfermeiro que encaram a família tendem a suavizar, a amenizar, a dar esperança, no fundo.. a mentir? Será uma mentira válida? Haverá porventura uma mentira piedosa, isenta à crítica? Ou esta mentira será para evitar lidar com o sofrimento alheio? Evita concerteza um pranto espontÂneo, incómodo de lidar.
Haja verdade, haja sinceridade, haja coragem. Ser verdadeiro, no entanto, e nesta mesma situação não é ser arrogante. É o mais vendido produto televisivo, este engodo de que ser verdadeiro é ser grosseiro ou arrogante (e já agora requer uma barba de meia duzia de dias e uma bengala de estimação). ser verdadeiro é ser sincero, com a situação, connosco, com os outros.
Excluo que nesta situação de portas ou portinholas ou frestas da morta, não haja uma milagrosa cura. Aí mais do que a mentira, há a mentira orquestrada. Ou então estamos mesmo perante um filme hard-core, onde pela milionésima vez se explora a imagem da enfermeira "safadona". Milagres, só Jesus, e nem ele os queria divulgar. Teve ao menos a coragem de não os negar.(referências biblicas e alusão a pornografia juntos dá um cocktail, estranho, mas também digo-vo que já bebi coisas piores)
E os intermináveis affairs, casos amorosos e enredos novelescos? Aí sim rejubila a mentira.Mas porque mentem as pessoas? Para se encontrar com outra? Para manter uma relação que não os satisfaz?
Acima de tudo mentem a eles próprios... "Fui a tal sítio, ter com o tal grupo de amigos, fazer tal coisa" A mentira nota-se quando começa a surgir uma história elaborada, pois a verdade tem tudo para ser simples.
"Gosto de ti, não sabia bem o que estava a fazer, não volta a acontecer". Citando um autor de origem anglo-saxónica: BULLSHITTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTT.
Vamos decifrar: "Estou a mentir a mim próprio, é certo que errei, mas se me auto-comiserar pode ser que esqueça o pulha que sou, assim não tenho de lidar com o facto de ter traído o que sentes por mim" ou "não sou nada feliz, no fundo tentei apenas sabotar a nossa relação porque não a consigo terminar". Mentimos porque não sabemos lidar com a verdade, porque no fundo temos aquele gostinho suicida de ser descobertos. Caso não o tivessemos, não mentiamos.
A verdade às vezes parece-nos demasiado simples, não atrai a empatia alheia, muito menos as suas atenções. Alguém precisa de uma pequena ajuda, aquela mesma pessoa que já esteve ao nosso lado tantas vezes. "Podes ir amanha trabalhar por mim?". (A) "Não, sinceramente não me apetece" ou (B) "Tou cheio de trabalho, e problemas de isto e daquilo, eu é que preciso de ajuda". A resposta define-vos.
Enquanto esperamos mentimos, fugimos de nós próprios, fugimos e olhar nos nossos olhos, na nossa alma.
Pois não há mesmo mentiras misericordiosas, não há mentiras menores, não há omissões (palavra janota e bem vestida para nomear também a mentira). Há apenas verdade, e a falta dela.
Assustem-se revistas cor de rosa, os amantes já não mais mentiram. "tenho namorada mas estou aqui contigo, importaste?". Assustem-se médicos e enfermeiros "diga-me a verdade, é a melhor maneira de me ajudar". Assustem-se caros amigos humanos, perderão amizades (mas que raio de amigos eram se mentiam), perderão empregos (haverá sempre os renitentes há verdade, obstinados no seu egocentrismo), mas ganharão a verdade.
A verdade é simples, mas não é por isso que deixa de poder ser desfrutada. Porquê sunquick de Laranja quando a laranjeira está ao vosso alcance?

sábado, 6 de março de 2010

A liberdade de se aprisionar

Liberdade! O que há de melhor? Lutas intermináveis por este valor, mensagens infinitas sobre este ideal. Lberdade para sonhar, liberdade para viver, liberdade para decidir, liberdade para sofrer e para desiludir. No fundo liberdade para ser livre.
No entanto sendo livres, optamos vezes demais por não o ser. É comodo ser apenas livre no pensamento, na ideologia, e não nas acções.
Numa qualquer sala de espera de um qualquer hospital acumulam-se pessoas livres, pelo menos na teoria. Adoeceram (num grau mais ou menos elevado, mas isso é questão para discussão mais alargada), e tomaram a liberdade de ir ao local de culto do doente (isso mesmo, o santuário das maleitas, vulgo Hospital). Liberdade que fica à porta, no fundo não procuram explicação, procuram apenas que alguém lhes diga o que fazer. Sorte das sortes, o papel autoritário que não explica e apenas transmite (após longos segundos ou minutos de matutação, conforme os anos de carreira), assente que nem uma leva no médico.
Abdicamos da liberdade, pelo conforto da obrigação de cumprir um esquema de uma panóplia de medicamentos e recomendações. "Alguém disse para fazer" é mais seguro do que "sou livre para perceber o que tenho".
Uns anunciam tornar-se revolucionários, procuram a explicação (seja uma busca exaustiva no espaço virtual ou numa qualquer revista cor de rosa), mas rapidamente esquecem as suas dúvidas. "Fui mal atendido" apregoam uns, "não fiquei esclarecido" sussurram outros, mas declamar a alto e bom som... tá quieto (e aqui se esgotou a riqueza do palavreado numa expressão tão tradicional)
No amor somos livres de escolher, de amar. Escolhemos a beleza de alguém, mais a sua personalidade inigualável. Somos livres, até ao momento em que a coisa dá para o torto ( brilhante raciocínio geométrico; se não está direito, está mal). Aí esquecemos a liberdade, aprisionamo-nos ao comodismo e se alguém tem de resolver algo que seja o outro, ele é que é o livre na relação.
Portanto não só rejeitamos a liberdade, como ainda a atiramos para longe quando não nos é conveniente.
Adoro as eleições, consigo demonstrar todo o meu poder sobrenatural adivinhando o que estará a dar em 3 canais em simultâneo das 19h às 23h. Aparte disso, torna-se um dia hilariante, um exercicio curioso sobre liberdade.
Cresci ouvindo a história de que no passado havia apenas um partido, sempre ganhador. Hoje mais do que ouvir, vejo vários partidos, mas poucos a votar. Abdicamos da liberdade de escolher, é mais fácil que o façam por nós. Agarramo-nos com afinco apenas à liberdade de reclamar, essa sim bem aguçada. Mas quem não vota,tem o direito de reclamar quando se escondeu na hora da decisão? Tem pois claro, é livre, mas nem sempre se lembrou disso.
Ora, amor, politica, saúde, reune-se aqui bom material de debate... Sou livre, posso decidir, posso comentar, posso inventar, iludir, posso fazer "o que me der na telha" (alguém tem cabelo cor de tijolo?...). Mas não me posso esquecer que a telha é parte do telhado e mais do que ser livre temos de merecer a liberdade.
Deixamos vezes de mais que pensem por nós, que sejm livres na nossa vez. Acomodarmo-nos é abdicar da felicidade, é também abdicar da tristeza, mas são os extremos que adoçam a vida. Num tom monocórdico ninguém disdruta a música, numa tonalidade cinzenta ninguém se deslumbra com a paisagem, num olfacto bolorento ninguém se enterna à embriaguez de um perfume.
No fundo não ser livre em cada passo é isso mesmo. Tornar as esperas constantes da nossa vida, um abdicar da liberdade, apenas um momento de pausa até nos ser dito como fazer.
Eu quero ir ao hospital para perceber o que tenho, para debater o que é melhor. Eu quero amar para me apaixonar por cada pedacinho do outro, e não vitimizar-me, lamentando em surdina (ou a alguma amante oportunista) o que não tenho ou poderia fazer. Eu quero votar, quero ser o jogador que conduz a equipa, quero ser o primeiro sugerir o que idealizo, no fundo quero ser livre... SEMPRE.
Ser livre é como ganhar. É preciso aguentar a responsabilidade, e querer sempre mais.
Volto à sala de espera, desepero pois a única liberdade é a dos entrometidos... "para que médico está?". E que tal... "porque raio gasto as perguntas todas na sala de espera para não me sobrar nenhuma no consultório?"

quinta-feira, 4 de março de 2010

Sala de(s) espera

A vida é uma sala de espera. Esperamos para ser felizes, esperamos para ser saudáveis, esperamos para sonhar, esperamos para nos desiludirmos.
Esperamos antes, esperamos durante, esperamos depois.
Esperamos o melhor, sem nunca deixar de esperar não ter o pior.
E depois de ter aquilo que esperamos, voltamos a esperar, tentando perceber o que significa a conquista de terminar a espera.
A espera confunde-se vezes de mais com o desespero, e a sala de espera é onde se desespera;
Por um sonho, por uma esperança, por uma notícia má, por uma noticia assim-assim, pela próxima espera.
Nascemos esperando que no além encontraremos a vida perfeita, morremos esperando voltar a viver. Gozamos a felicidade, com a ansiedade de a espera ter acabado, sofremos com a tristeza, agonizando na espera que nunca mais termina.
Não fujo à regra, espero algo. Espero nunca deixar de esperar, pois a espera comanda o sonho, a ansiedade de querer mais, o nervosismo do desconhecido. Pois está claro que a espera mantém o enigma da imprevisibilidade: esperar não é sinónimo de conseguir, de concretizar, e muito menos é parceiro íntimo de o resultado ser aquilo que...esperamos.
A diferença da minha espera é não ser muda ou tão pouco, silenciosa. É uma espera ruidosa. Palpita o coração, saltitam as palavras.
Quanto ao coração poderá confundir-se com uma qualquer doença menos feliz (como se houvesse alguma boa), mas espero que não. Já as palavras são um grito mudo, mas barulhento da minha espera.
Espero ao lado de tantos outros, espero sozinho, espero em cada canto e quando me vejo sem esperar, desejo...esperar.
Espero a hora de saída do emprego, espero depois voltar. Espero amar e ser amado. Espero vencer e ser melhor . espero saborear e nunca ficar cheio. No fundo...espero.
Mas qual o segredo para esperar? Haverá um bom esperar?
Há um segredo! (e os sinos celestes tocam, ou, numa questão de gosto pessoal, afinam-se as guitarras e perfilam-as as mesas de mistura). O segredo é o que se faz durante a espera.
Uns lêem revistas (como quem diz, enchem a espera de trivialidades), outros pensam naquilo que os espera (candidatando-se a eternos desiludidos ou a pérpetuos não-realizados). Outros ainda ensaiam para o final da espera (insinuando-se a prémios de péssima representação), ou questionam a espera alheia (tal é o magnânime interesse da sua própria espera). Raros, aproveitam a própria espera, desfrutam da sua própria sala de espera, entregam-se à imprevisibilidade da espera, e arriscam-se no fundo, a serem felizes.
E ser feliz implica deixar de esperar? Ou implica esperar mais, continuar a sonhar?
Esperamos saber a resposta, ou esta será mais uma espera?
Não há respostas, há opiniões; há a espera pelo momento em que mais do que esperar passamos a contemplar, aí acaba a espera, mas também a vida, pois esperar é querer, e querer é viver.
Nestas linhas deixo a minha espera, deixo a espera dos outros, esperando simplesmente aproveitar a sala de espera. Nestas linhas deixo um pouco de mim, sem falar de mim, deixo os meus olhos (astigmatas, mas sinceros), os meus pensamentos (os não sujeitos a censura), as esperas com que me vou cruzando.
Ler revistas? nahhhhhhhhhh. É demasiado interessante a sala de espera