terça-feira, 3 de agosto de 2010

A osmose e Newton: a fisico-quimica da vida

Uma das teorias mais interessantes deslindadas pelas ciências físico-químicas, é, sem dúvida, a osmose. Presente na maioria dos fenómenos naturais, explica muitos dos pequenos factos que pincelam o quadro do nosso quotidiano.
Ora fazendo aqui uma necessária, mas breve, resenha, a teoria define que havendo o contacto entre 2 meios em que exista uma concentração diferente de uma matéria, ou substancia, a mesma passa naturalmente de onde a concentração é maior para onde é menor, até assim se atingir um equilíbrio. É a harmonia cósmica em todo o seu esplendor de papel de embrulho (amarrotado pela complexidade do Homem).
Não posso deixar de notar em primeira análise uma gritante contradição: olhando para uma carteira que prima pelo espaço livre (faria eco sem fim, se tivesse uma carteira de maiores dimensões), não deixo de pensar que diariamente passo pelo menos por um Banco. Ora aqui a osmose esgota-se na teoria e a maior concentração de capital permanece bem reconfortado dentro das paredes da caixa forte.
No entanto a osmose contagia a vida quotidiana. Repare-se por exemplo na mediocridade; num mundo actual em que se prima pelo cinzentismo, torna-se escassa a cor da diferença.
As baixas expectativas, o abdicar da capacidade de sonhar, a perspectivas apenas de uma felicidade "assim assim" constituem o medíocre. E este medíocre abraça todo o positivismo, todo o grito que rompe o silencio, toda a luz que fere a escuridão; a osmose sente-se em todo o seu esplendor e acomoda-se o sonhador, resigna-se o apaixonado pateta, desinventa-se o inventor. Mais do que o sonho, a ambição ou a paixão a osmose reestabelece um triste equilíbrio, não permitindo mais do que a realidade "assim assim".
Reparem no exemplo de um autocarro: o passageiro recém chegado procura sempre o espaço mais vazio para se acomodar (onde há a menor concentração de pessoas), isto está claro depois de evitar as milhentas pastilhas elásticas acomodadas em vários assentos. Até aqui a osmose opta pelo mediocre, opta pela distribuição dita harmoniosa, mas que alma se encontra em harmonia quando está sozinha?
Raio da química, que com os seus iões, protões, neutrões e afins nos impinge uma mediocridade que não ousamos contrariar. Para que conste, e agora que já folheei com atenção o desgastado manual de química, importa referir que a natureza nos contemplou com o fenómeno da convexão. Trocado por miúdos (que raio de expressão idiota, afinal o analfabetismo há mais no idosos que nas crianças), explica-se que fazendo uma forçazita, a osmose pode ser contrariada. Mediocridade, mantém-te longe, eu ouso ser diferente.
O impressionante é que a mediania, a mediocridade, a acomodação, têm elas uma imponente força de convecção no que toca à mudança, à inovação. Imunes a qualquer luz que inrrompa pelo seu breu e cinzentismo, contrariam a osmose, que aparentemente só funciona para os aspectos que debotam a cor da vida, que sugam o nectar da existência.
A vida surge recheada de inevitabilidades. A vida é quase caracterizada pela maçã de Newton, que para além do aspecto sumarente, define a gravidade, a inevitabilidade da queda, do acontecimento.
Newton sentado por debaixo da sua maçã, Galileu no topo da Torre de Pisa, não concebiam a hipótese de algo diferente suceder. Tal como eles, mais do que esperarmos uma queda, mais do que esperarmos que ocorra de uma determinada forma, esperamos que a vida siga certos pressupostos, decorra de uma maneira pré-programada, siga um plano explicado exaustivamente, ilustrado claramente.
A Newton restava a opção de contrair a queda da maçã, apanhá-la, arremessando-a de volta, arremessando a inevitabilidade de encontro a um destino fatalista. Restava a opção de pegar na maçã, atirá-la para longe, admirar a horizontalidade do movimento que foge à rotina, que foge à simples queda.
A vida não tem de ser um pack com condições bem definidas, com uma quantidade de felicidade permitida delimitada por plafinds.
A vida não tem de ser um acumular de mediocridade, mas sim uma explosão do inesperado a cada dia. E não é certo que a um dia se siga outro, afinal a maçã nem sempre cai, apodrece. Ela resiste, floresce, torna-se impevisivel.
A vida é feita de leis, mas que sejam leis construidas na imprevisibilidade de cada dia, na escolha da cor em detrimento da pincelada cinzenta.
O

domingo, 25 de julho de 2010

A origem do universo: uma nova perspectiva do Big Bang

A teoria mais aceite para a formação do universo é o Big Bang, ou, se preferirem a tradução, o Grande Catrapum. A teoria consiste num pressuposto básico: existe uma condensação de matéria (tudo o que era existente), que a dado momento contém tanta energia que não lhe resta alternativa senão explodir (curioso que dito assim parece que descrevo uma discussão conjugal...).
Ora impingem, perdão, ensinam portanto que a partir da explosão da matéria (o dito catrapum) se inicia a expansão do universo. Fica-me, no entanto a dúvida... Se a condensação supra-escamoteada era a  totalidade de tudo o que existia no universo, então para onde raio se irira expandir? Teria de haver espaço, teria de haver algo mais, senão não haveria possibilidade de expansão. Por mais tralha que se acumule nas minhas prateleiras, se não tiver uma arrecadação ou garagem, não há por onde expandir o meu patético império de bens pessoais.
O big bang não é mais do que um mero exercício conpulsivo de uma mente humana que procura a explicação para tudo. Procuramos a teorização, a racionalização, a dissecação de cada um dos aspectos da vida que nos falha à compreensão.
Porque motivo não saí de casa 5 minutos mais cedo e teria sido envolvido num acidente catastrófico? Porque razão tomei a opção mais idiota num qualquer momento? Qual a explicação para tanto azar se abater sobre mim? Ou ainda o mais típico: porquê eu?
Questões sem fim. Questões às quais não tem de corresponder obrigatoriamente uma resposta.
Desde os tempos da escravização intelectual do catolicismo que interiorizamos que dogmas (verdades inquestionáveis, para quem só chegou ainda à letra C do dicionário) apenas são relacionáveis com Deus.
No entanto a vida encarrega-se de ir comprovando um dogma diário: o "porque sim". A génese do porque sim remonta ao Big Bang, que aconteceu porque sim. Expandiu-se o universo porque sim, espalharam-se, quais cacos de um cristal baratucho, os planetas, estrelas e poeiras cósmicas porque sim, criou-se vida porque sim.
Muito humor houve concerteza na criaçao do ser humano, e aqui o porque sim deve ter sido acompanhado das mais valentes e audiveis gargalhadas. A "idade dos porquês" perpetua-se ao longo de toda uma existência pouco conformada aos "porque sim", mas acomodada às espatafúrdias (por favor ao chegar à letra E do dicionário confirmar existência desta palavra)  teorias explanadas com pompa.
Moral da história, o Homem busca a explicação para o mundo que o envolve, para a sua própria Natureza, mas satisfaz-se rapidamente pois a procura pela explicação é apenas uma procura pelo conforto.
Aceita-se a teoria do Céu após a morte, eplo seu conforto, mas...onde raio caberiam num espaço todas as pessoas que algum dia pisaram a Terra? E quem teia sido o primeiro a lá entrar? Já agora, e preocupo-me sobretudo por motivos estéticos, entrando no Céu, ficamos com a aparência à data da morte ou é opcional? Por fim fico com o lado dos 20 anos. Na ausência de explicação estruturada, limito-me a esperar para ver. Depois conto!
A vida é portanto imprevisível, cheia de decisões esporádicas que não percebemos. Basta portanto de explicações medíocres (já imagino o podre namorado traidor a desculpar-se com o álcool, ou a namorada traidora a dizer que as amigas é que incentivaram). Basta de dissecar emoções, sentimentos, impulsos. Mais do que explicar há que assumir a vida, há que ter coragem de saber não só aceitar os "porque sim", mas gritar a plenos pulmões "porque não?"

PS - Deixo uma questão pertinente: se o universo é tudo o que existe, e nele há buracos negros (como se houvesse algum buraco com iluminação natural radiante), quer dizer que o universo tem uma cave? Já agora há escadas (ou elevador) para o andar superior do univeso?

segunda-feira, 19 de julho de 2010

É caseiro sim senhora...

Numa altura de contenção financeira, em que os tostões na carteira perdem espaço para as simpáticas traças (e que gordinhas estão, alimentadas pelos vestígios de infrutíferos talões da sorte grande que sempre foi azar), continuamos a escolher formas curiosas de gastar os nossos recursos.
Todos na vida procuram o melhor, dentro das limitações que a realidade cruel nos impõe. Mas este melhor é, não raras vezes, uma ilusão, uma máscara. Procuramos sim o mais reluzente em vez do verdadeiro material precioso (já o dizia numa magnifica música o poeta cantor edward louis severson III).
Nos beirais de inúmeras estradas deste país, de tantas lugares mundados, empilham-se bancadas artesanais apregoando o produto caseiro, o produto original, recheado de pureza da ponta da folha de espinafre ao tutano da galinha depenada. O citadino pára, desembolsa dinheiro, reluz a genuidade do campo, e para casa, leva a ilusão da fruta mais fresca (aquela doçura da maça escorrendo suco que nem uma chuva de sabor a cada dentada), a promessa da carne mais tenra, a convicção da flor mais aromática ou da verdura que de tanta vitamina e fibra, envergonha o melhor dos suplementos vitamínicos. Leva as ilusões, leva as convicções, leva também o brilho, sem quase nunca levar o precioso. Leva sim a fruta das grandes superfícies comerciais, a carne de um banal talho, a certeza sobretudo de que procurando o melhor esqueceu o precioso, levou apenas o que mais brilha. Esperto o saloio, que de ar tão angelical e puro, limitou-se a adquirir os seus produtos num qualquer supermercado. Não é o conteúdo, é a embalagem reluzente que importa.
Aqui se aplica o curioso provérbio de "comprar gato por lebre". Ainda que nunca eu comi lebre, mas as semelhanças entre um semelhante de coelho e um gato me pareçam aí sim demasiado óbvias. Confesso nunca ter visto um gato escalfado, como os pobres coelhos no talho, mas acho que aí reconheceria a diferença. Já a diferença entre latão polido e ouro ferrugento é de distinção mais destinada aos olhos e instinto mais exímios.
Ora com as suas compras aldrabadas no aconchego da sua dispensa, decide o nosso "alguém" entre tantos "ninguéns", seleccionar um destino de férias. Vasculha os sítios que cada um dos alguéns do seu mundo particular de ninguéns recheia de elogios. Esquece-se que não há nenhum ninguém que, para ser alguém, não escapa à gabarolice e as férias num sitio exótico, mas ilustradas por chuvadas, alergias e tropelias, tornam-se um conto de fadas, solarengo
Escolhe-se o hotel mais caro, pois nem que seja por 2 tostões, se é mais caro é necessariamente melhor. Escolhe igualmente o destino mais caro que lhe permite a sua bolsa, com um qualquer incremento de um fácil (mas condenador) empréstimo de ocasião. Se é mais caro, é naturalmente, melhor. Esquece os seus sonhos, os seus gostos, as suas preferências. Esquece porventura que tem um medo aterrador de água, no entanto selecciona o paraíso dos mergulhadores. Tem um medo petrificante de longos voos, mas escolhe um destino do outro lado do mundo (para além de onde Colombo acreditava cair da Terra para o vazio. E que delicioso era a ideia de um mundo chato e achatado). Abomina a praia e não foge ao destino cuja areia beijando o mar são a única opção para se ocupar. Esquecemos o que valorizamos para ostentar-nos por cada cantinho de um mundo que nos ignora com uma reluzência que em nada condiz com a nossa felicidade.
Escolhemos o mais caro, tal como escolhemos o mais barato (e aqui surge a irritante mania de cidadãos abastados apregoarem que compram económico na feira as suas blusas GAP, Sacoor e afins, tudo para reluzirem com a sua simplicidade artificial), o mais piroso, o mais requintado. Escolhemos vezes de mais o que mais brilha aos olhos alheios do que o que é realmente precioso para nós. Deleitam-se mais os olhos do que a alma, esforça-se o ego mais por agradar ao alheio do que a ele próprio.
Para ver o brilho em algo é indispensável que seja polido. Polido com empenho, com esforço, com perseverança quando após tanto esfregar (e o teimoso génio da lampâda permanece numa teimosa sesta) o brilho urge em surgir.
Mas o brilho fácil desvanece, desgasta-se demasiado rápido. É a diferença entre ter um brinde reluzente saída numa bola de 2 euros, ou um anel de ouro escondido no fundo de uma gaveta, e que espera apenas a nossa atenção para resplandescer.

PS- Avozinha, obrigado por tantas vezes me levares à feira quando era mais pequeno, mas os senhores da feira cheira-me que vendem azeitonas e alfaces iguaizinhas ao Pingo Doce=)

sábado, 24 de abril de 2010

Esticando a mão, toco no vidro que me separa do mundo...

Gentilmente ou bruscamente, a areia é acariciada pela água do mar. Beija-a com a violência das ondas, escuta-a com a tranquilidade de uma maré que desagua serena. No horizonte o sol deixa-se embalar, ameaça tocar a água, naquela distância longínqua que não poderemos nunca alcançar.
As marcas de pegadas desvendam histórias imensas, de brincadeiras, de romance, de aventura, de um qualquer "porque sim", de todos os "porque não?".
Mas, transpondo os limites da praia, alinham-se carros, empilham-se almas. De norte a sul do país, de este a oeste no mundo, a imagem é transversal, qual fotocópia, pincelada somente com cores diferentes. E por mais que viaje a imagem repete-se, sem cultura, apenas com pequenos detalhes que a impedem de ser enfadonhamente igual.
Dentro de carros pelo mundo fora alinham-se casais, famílias inteiras, individuos solitários, que escolhem ver o mundo através de um vidro. Resguardam-se do calor da areia nos pés, dos salpicos refrescantes que saltam frenéticos de cada onda, das conchas enterradas na areia, vindas de uma qualquer parte do mundo.
Não será então preferível sintonizar no conforto do sofá um qualquer canal que, em filmes hollywoodescos ou em documentários entediantes, mostra a praia?
Admiro esta procissão domingueira, afinal de contas as massas (porque raio um aglomerado tem de ser chamado de massa? Será uma pasta humana?), desafiam o comodismo e vão ver o mar. Porque criticar? Porque simplesmente preferem estofos confortáveis, ar condicionado e musiquinha sintonizada, gritando clássicos, relatos domingueiros de futebol ou êxitos da dança moderna? Até seria uma opção possivel de aplaudir, o conforto acima de tudo.
Mas no final do dia quantos saberão a temperatura da água? Quantos deixarão um castelo de areia que marcará a sua presença (devidamente decorado posteriormente por uma poia de gaivota, com certeza)? Quantos sentiram a areia escorregando estre os dedos?
Vivemos hoje o mundo demasiado através de outros meios  que não os nossos sentidos. Deixamos que o mundo passe por nós sem deixar-mos a nossa pegada na areia, simplesmente observando-o. Está tudo bem desde que no nosso minusculo espaço em redor o ar condicionado esteja agradável.
Amamos artificialmente, envolvemo-nos o quanto baste para que a relação seja aquilo que o mundo espera de uma relação, tranquila. Dançamos timidamente, corando quando o volume do rádio é impossível de manter baixo (apetece mesmo, mesmo, mesmo berrar aquela canção, ainda que estejamos no meio do trânsito), ou quando todos à nossa volta estão parados. Vivemos amorfamente procurando apenas um conforto momentâneo, esquecendo que a alegria se procura para além da nossa "bolha" pessoal.
Os vdros que erguemos à nossa volta não nos deixam esticar a mão, mas não nos deixam, também, sofrer. E aqui surge um cruzamento, sem possibilidade de seguir em frente (excepto, está claro, naqueles dias em que o álcool inventa novos caminhos ou convence de que é possível atravessar paredes); é inevitável optar pelo conforto ou pela emoção, é fatídico escolher se permanecemos dentro do carro ou se arriscamos "sentir" o mundo.
Diz uma música que me emociona (vide Many of Horror da autoria dos Biffy Clyro), que duas pessoas têm de chocar para ficar juntos. No amor chocamos de menos, erguemos o vidro do conforto, esquecemos a emoção de cada segundo em que vivemos intensamente cada sentido, cada odor, cada textura, cada sensação.
Diz a minha alma que vejo demasiadas tentativas de controlar o ambiente, de o dotar de elementos confortáveis, planeando cada dia, cada momento ao mais exaustivo pormenor. Vejo demasiados atentados à emoção, eliminando a surpresa; expectamos em demasia, trabalhamos arduamente para que cada momento saia na medida exacta do que perspectivamos.
Dizem os meus olhos que as mãos deixam de rejubilar ao toque, que o nariz adormece perante os mais inebriantes odores, que a alma deixa de trautear aos acordes de músicas magníficas, que o coração deixa de palpitar na eminência de emoções fortes. Tudo porque entre nós e o mundo há uma barreira que coloca em estado de coma os nossos sentidos.
Amigos, amigas, pessoas à beira de qualquer praia, à beira de qualquer emoção, tenham a bondade de abrir a porta do carro, seja num dia solarengo, seja num dia chuvoso. Sintam o calor na face, sintam a chuva refrescante, vejam as ondas no seu esplondor glorioso, sintam a vida TAL E QUAL ELA É.
Amem sem barreiras, vivam sem o raio do ar condicionado (atentem bem no nome, o ar já está condicionado) que só vos dá um conforto fútil, breve, sem sentido.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Home sweet home: Serão as paredes, afinal, doces?

Nas palavras imortalizadas pela cativante balada de Chris Daughtry todos nós percorremos um trilho, que por mais tortuosos sentidos tome, leva-nos sempre até à nossa casa. "i'm going home, to the place where i belong", grita a plenas pulmões o música, grita em plenos pulmões o nosso espírito inquieto.
Parecendo saído de um qualquer drama cinematográfico, alguém, um destes dias (não importa quando, pois o passado torna-se em presente sempre que o recordo) faz da sua surdina um grito audível, exclamando "tenho saudades de casa". Momentos depois suspirou pela última vez, o ar evaporou-se de um corpo já frágil, o sangue gelou em veias cansadas de um vida de frenesim, o coração repousou de um ritmo incansável, acelerado pela alegria ou pelo medo, adormecido pela tristeza ou pelo conformismo.
O que buscamos nós na vida? Ser felizes? Sem dúvida; Sentirmo-nos realizados? Claro; Alcançar um passado digno e um futuro risonho? Certamente. Mas a vida é cheia de turbilhões de sentimentos, de eventos, de acasos. Que nos testam, que nos magoam, que nos ferem com a cruel verdade de que nem tudo é possível.
E se a vida é uma espera, é também uma indubitável verdade que é também uma fuga. E corremos, meus amigos, todos na mesma direcção: para casa. É lá a nossa segurança, o nosso abrigo, o nosso "botaão de pausa" num filme sempre em rodagem, tantas vezes depressa demais para que sequer consigamos ler as legendas (ainda que não ler as legendas possa ser igualmente um problema resultante de vermos o filme perto demais, nada que ver o filme ou qualquer questão na vida 2 passos atrás, não resolva)
Mas onde é a nossa casa afinal? Serão as 4 paredes que nos dão abrigo de uma Natureza jocosa e irónica? Será um local? Ou terá algo para além de uma dimensão física? A casa não é construída de tijolos, de telhas, de cimento (de maior ou menor consistência, directamente proporcional ao empenho e consciência do construtor), é constituída por sentimentos, abraços, sensação de segurança e de pertença. O lar, mais do que uma dimensão visível é uma sensação, e o que procuramos é, no fundo onde pertencemos.
Não há melhor exemplo do que a história (e não estória como alguns novos inventores do português procuram impingir, aliás mais do que a eles, respeito todos os que tiveram a bondade de me ensinar o dom da escrita) dos 3 porquinhos e do lobo mau. Ora vamos então por partes.
Resumidamente 2 dos porquinhos foram preguiçosos, ergueram casas frágeis. Um outro porquinho ergueu uma casa mais sólida, cheio de brio e labor. Eis chegado o lobo mau (ainda enfartado ou não após o belo deguste da avózinha do Capuchinho Vermelho), que, obviamente não tendo hábitos de fumador inveterado e conservado um invejável fôlego, deita abaixo as casas frágeis, restante a casa sólida como porto de abrigo.
Injustiça N.º1: obviamente a casa de tijolo foi mais demorada a construir, logo caso o logo lá tivesse ido primeiro, provavelmente estaria ainda nas suas fundações.
Injustiça N.º2: sendo a última a ser visitada, a casa sólida sofreu um sopro bem menos conseguido. Afinal não há fôlego que resista, nem mesmo do melhor alpinista ou mergulhador de apneia.
Injustiça N.º3:alguém quer fazer passar a ideia de que só uma típica casa de tijolo é segura, quando há séculos o ser humana habitou em casas de gelo, palha e afins materiais.
Alguém questionou quem seria o porquinho mais feliz? Porque razão tem de ser a casa física mais sólida a proporcionar a maior felicidade?
Mais do que qualquer condição física, a nossa casa são os nossos lados. Aqueles que amamos, respeitamos, desejamos, são o nosso tecto, as nossas janelas, cada rodapé, cada ombreira da nossa vida.
Mais do que uma cozinha reluzente, mais do que uma casa-de-banho (mas afinal só se lá toma banho?...) admito que casa-de-fazer-necessidades se tornava um nome pouco apelativo) luxuoso, mais do que um quarto repleto de mordomias e uma sala-de-estar (e não é qualquer sítio uma sala de estar? basta lá estarmos e ser uma sala...) repleta de decorações inúteis, acariciadas até ao tutano pelo cotão e seu amigo intimo pó, importa ser feliz.
Um qualquer sítio será o nosso lar se lá estivermos felizes. Mas a função do lar não é só proporcionar conforto. Aliás mesmo a mais bela casa se torna obsoleta, nos cansamos dela se deixarmos que esmoreça o encanto inicial de quanto metemos o primeiro pé dentro dela.
Eventualmente o lobo acabaria por conseguir entrar na casa sólida, pois habituados ao sentimento de segurança, os porquinhos descurariam investir no lar. Iriam acomodar-se e em breve tudo seria melhor que o seu lar.
Para muitos a acomodação à casa, leva a que o seu lar seja transferido para um bar próximo, para o emprego, para os braços de um qualquer amante. A casa traz segurança, traz comodidade, mas não é o lar.
O lar é doce, são os beijos de quem amamos, os sentidos abraços dos amigos, o amor da família, a adrenalina da aventura. Mas o lar é exigente também; agarrá-lo é um desafio, que atormenta a nossa tendência natural de acomodação.
Mais do que sentirmo-nos em casa, temos de nos sentir no lar. Mais do que descalçar os sapatos e colocar os confortáveis chinelos, há que amar o lar, fazê-lo sentir tão especial quanto nos faz a nós.
Saiam de casa, procurem o vosso lar. Alguém o procurou fora deste mundo, procurou algures num espaço que desconhecerei, mas a distância que cada um percorre depende dele próprio. O lar é cada esquina, cada momento, cada segundo, em que lutamos, em que sorrimos, em que dançamos, em que somos felizes.
Abram as portas, pois as 4 paredes que vos resguardarão da chuva apenas vos impedem de sentir a paixão de cada gota.
Façam da felicidade de cada momento o vosso lar, o sítio onde afinal, pertencem.
Home sweet home... para não esquecer, o doce apenas se sente quando já provamos o amargo. Requer-se luta, requer-se sofrimento, requer-se coragem para fechar a porta de casa e entrar nos portões escancarados do lar.

PS O meu respeito e solidariedade a todos os que têm de fazer da rua a sua casa. Não deixem de buscar o vosso lar.
Esta solidariedade está imortalizada de forma brilhante por Pedro Abrunhosa, não deixem de espreitar: http://www.youtube.com/watch?v=sqK7Ys155j4





terça-feira, 30 de março de 2010

Do primeiro ao último olhar: a homenagem aos (bons) enfermeiros

No primeiro suspiro de vida, deixando que o ar beije cada recanto dos seus pulmões, deliciando os olhos com a luz brilhante, uma imagem surge. A primeira que vemos, sejamos brancos, negros, amarelos, ateus ou fervorosos religiosos, ricos ou menos favorecidos, é, salvo acidentes de percurso, a de um enfermeiro que gentilmente nos recebe nos seus braços. É o primeiro que luta pela nossa vida, o primeiro a cuidar de nós, o primeiro que antes de nos apresentar à mãe, não deixa de nos emprestar um pouco do seu empenho em trazer mais uma vida ao mundo.
No final da nossa vida, quando o fôlego nos abandona, quando a luz já fugiu, levando as cores e as emoções, e cada recanto parece invariavelmente frio em demasia, uma imagem nunca desvanece. A última enfermagem é a de um enfermeiro, que não deixa de cuidar até ao último suspiro, e para além dele.
Dirão, neste último caso que há demasiadas excepções. Demasiadas almas encontradas caídas, já sem vida, mas na verdade todas fazem uma última visita por uma qualquer sala de reanimação de um serviço de urgências.
No entanto entre o principio e o fim, existe um inevitável e óbvio meio, e nele a luta pela vida é constante, mas a imagem é sempre constante. por mais cromos que as saquetas escondam, sai sempre a mesma imagem, e aqui acreditem que o cromo é dos valiosos, ainda que não lhe seja dado o devido valor.
Ser enfermeiro já significou dedicar-se à prostituição ou ao sacerdócio. Estranho? O que podem ter em comum? Ambas são antes de mais demandas a que poucos tem coragem de se dar (escrevo coragem com hesitação, mas não encontro palavra melhor). Esgota-se aqui a equivalência, pois em tudo o reto é diferente.
Não há posição ou cargo na sociedade mais sujeito ao estigma e à desconsideração. Antes de mais não há sacerdocio na enfermagem; ainda que haja muito boa vontade, todos merecemos um salário justo e todos (numa sociedade demasiado egoista e dependente de desperdicios, tão bem descrita pelo brilhante Murakami) temos as nossas obrigações monetárias. Depois, importa referir que não há subserviência, não há avental colocado para servir um qualquer outro profissional de saúde. Refira-se ainda que não sendo agricultor e recorrendo apenas a uma analogia popular, o enfermeiro percebe da horta, e para os mais distraídos, não há enfermeiro que não lute por uma licenciatura (falamos, óbvio da era moderna, que no caso português chgou apenas no pós revolução dos cravos) e que, enquanto trabalha, luta por mestrados, pós-graduações, especialidades e afins, com uma sofriguidão inédita no panorama nacional.
Mas o que faz afinal o enfermeiro? "Dá picas", "Mete argálias", "Faz o que o médico diz"?
Ora... caros watson espalhados por todo o imenso mundo, estais redondamente enganados (e porque não outra forma geométrica?Afinal o circulo, por ser fechado, incapacita mudar...).
Ser enfermeiro é abdicar de dormir noites junto da família, é esquecer os amigos em muitas ocasiões (afinal alguém tem de trabalhar nas noites de fim de semana). Ser enfermeiro é ter nas mãos a constante responsabilidade de cuidar os outros, sabendo que os seus erros são minutos preciosos para quem está doente. ser enfermeiro é esquecer o quanto arrastar corpos pesados podem danificar a nossa vida presente e futura, é ter um sentido de colocar antes aqueles que estão à sua guarda, que a si próprio.
Ser enfermeiro é olhar a prescrição de cada médico e perceber se é o melhor para o doente, é escutar tudo aquilo que vai para além das meras queixas circunstanciais. É ser astuto o suficiente para perceber o que leva alguém a um hospital (já alguém se questionou porque são enfermeiros a fazerem triagens? Pois não há profissional de saúde algum que consiga decifrar um doente sem análises e infindáveis auscultadelas e apalpadelas frias e inconsequentes). É ser paciente com o nervosismo das primeiras vacinas, é atender inúmeras pessoas cheias de pequenas dúvidas, numa sociedade que esqueceu o instinto natural do auto-cuidado.
Ser enfermeiro é ter o primeiro sorriso num doente que viu findado um prolongado coma, ser enfermeiro é dar a mão quando a dor sufoca o sopro de vida (e não é um mito, e não há ordenado que o pague), ser enfermeiro é ser o primeiro a levar a sova quando alguém perde a razão num qualquer hospital (também não é um mito, e bravos são aqueles que defendem a causa com tanta paixão), ser enfermeiro é sobretudo ser o último a receber o agradecimento, mas o primeiro a, no leito da doença, a saber que foi verdadeiramente importante.
Dirá o professor, o agricultor, o lojista ou o desempregado que são importantes. Todos são, mas por assim pensar é que sou enfermeiro, afinal por todos serem importantes é que dia após dia me entrego, me exponho, me arrisco, apenas e só pelo prazer de chegar ao fim do dia sabendo que fiz algo por alguém.
O eles aqui confunde-se em demasia com o eu, e o eu hoje está com o todos. Enfermeiros em luta, apenas por receber nem mais nem menos do que recebem aqueles que prestam um chamado serviço público. Nem mais, nem menos, apenas o mesmo. Ambição?´Deixamos para quem se passeia de bata e estetoscópio, bajulado pela sociedade demasiado cega.
Haverão estotoscópios na hora da morte? Não me parece, aliás antes de qualquer suspiro minimamente semelhante ao derradeiro, já não se avistará nenhum. Já enfermeiros, não faltarão.
Haverão estetoscópios que se preocupem com a refeição que invariavelmente não se come na totalidade? Apenas na altura de calcular as calorias por dia. Já enfermeiros insistirão sempre, tentando perceber o que atormenta a alma.
Haverá algum médico em início de carreira questionado por erros grosseiros? De certeza neste momento um enfermeiro é olhado com desconfiança e rispidez porque a agulha não acertou na veia à primeira vez.
Haverá algum farmaceutico que veja para além da sinergia medicamente/corpo humano?. Indubitavelmente enfermeiro algum deixará de se preocupar com o medicamento que deu, e se resultou.
Ser enfermeiro é estar presente, nas alturas em quer todos falham. Têm o seu espaço, mesmo quando esse espaço é longe de familia, diversão e vida saudável.
Lutem por aqueles que lutam por cada um de vocês, lutem por quem vos vê como pessoas e não apenas como uma enciclopédia mais ou menos extensa de diagnósticos. Lutem por quem estará ao lado depois de cada cirurgia, de quem estará quando o braço não responder, ou quando o coração falhar. Lutem por quem estará ao vosso lado sempre, e que apenas não diz "presente" mais vezes, porque somos poucos. Porque a nossa responsabilidade leva-nos a abdicar de horas de refeição, leva-nos a abdicar de um trabalho saudável e cuidamos cada vez de mais doentes.
Sou enfermeiro e lute, porque continuo apaixonado por cada dia em que entro num hospital, e posso fazer a diferença para alguém, por mais pequena que seja.

PS Defendo apenas os bons enfermeiros, pois não há situação na vida isente de quem a deturpe ou corrompa. Enfemeiros ou enfermeiras, não é importante o género usado neste contexto. Homens e mulheres lutam por igual e desempenham de forma tão brilhante a nobre profissão.


segunda-feira, 22 de março de 2010

Será que vale mais um pássaro na mão que dois a voar?

A sabedoria popular é uma lei difícil de contrariar. Dita as suas próprias leis, cria dogmas, comanda expectativas. Antes de mais importa esclarecer aos mais popularuchos, não existem argálias, existem algálias. Sem grande nexo, mas é um estigma que me persegue constantemente, tal como é seguro o banho durante a menstruação, ou o efeito do antimicrobiano (vulgo antibiótico, para quem não ligue à morfologia da palavra) não é imediato Após este mini-desvendar de grandes mistérios da área da saúde (a merecer, sem dúvida, reflexão, um destes dias, num qualquer momento de libertação intestinal ou tão somente mental), vamos ao cerne da questão.
"Quem muito fala pouco acerta". Hummm... na verdade quem mais fala maior probabilidade tem de acertar. É uma lógica matemática bem simples.Na verdade tem igualmente maior probabilidade de errar. No entanto no arriscar está o desafio da vida, esconder-se da responsabilidade de decidir diminui o erro, mas amputa significativamente a possibilidade de êxito.
"Grão a grão enche a galinha o papo" Ainda que aplicável há pobre galinha, não me parece que seja "humanizável". Levante o braço quem, de um suculento prato de feijões come somente um de cada vez? Aliás a galinha come apenas um grão de cada vez porque não foi dotado de um bico que lhe permita mais aventuras. Come grão a grão porque não tem escolhe, tal como nós comemos grão a grão da nossa existência quando esquecemos que existe variedade. O milho é confortável, o milho é seguro, o milho não foge ainda que se coma apenas grão a grão. O resto das coisas já talvez fuja.
"Quem espera sempre alcança" Ora aqui está algo que poderia ilustrar o tema deste blog... Esperar aumenta a possibilidade de alcançar, no entanto a espera prolongada diminui drasticamente a possibilidade de alcançar aquilo que verdadeiramente desejamos. Alcançar não é intrinseco a satisfação. Queremos mesmo esperar, deixando esvair-se por entres as mãos aquilo que realmente queremos? Agarramos tão firmemente à nossa espera, que acaba por nos escapar o que desejamos.
E agora, luzes no palco, rufo de tambores, dançarinas de ar angelical. É verdade, mais valem 2 pássaros a voar do que 1 na mão. Estranho? Bizarro? Diferente?
Ter um pássaro na mão é aprisioná-lo, é no fundo afagar apenas algo que nos é confortável. Ter dois pássaros na mão é disfrutar da sua liberdade, apaixonarmo-nos pela sua beleza. Preferimos o seguro, afinal o pássaro na mão não foge, não requer investimento. Basta apenas e só alimentá-lo grão a grão (recuperando palavras anteriores)
Um pássaro livre come o que quer, não o vulgar grão. Chega à nossa mão mas a forma de o seduzir muda constantemente, e num ápice deixa de querer voltar. É difícil, exige entusiasmo, empenho, paixão permanente.
O nosso carinhoso pássaro na mão deixa-se ficar, às vezes já nem o mimamos (será que o verbo mimar existe?..). às vezes dotamo-nos de um maquiavélico egoismo, e o prazer advém apenas de saber que temos ali algo de garantido.
Mas a beleza não está em conquistar o fácil, o resignado, pois no fundo, nem o nosso pássaro é feliz na nossa mão. Aprisionar é também deixar-se aprisionar, quanto mais não seja a uma estagnação amorfa, cinzenta.
Deixem partir os pássaros da vossa vida, deixem que ambas as vidas, vossa e do pobre pardal, águia ou galinha (esta viajando em classe executiva numa qualquer low cost). Persigam os pássaros livres, deixem embriagar-se na panóplia de cores com que pincelam os céus.
Não virem cara à sedução constante daquilo que é essencial para nós. A vida é feita de pássaros a voar, aqueles que importam pousarão na nossa mão. E partirão quando entenderem. É mais fácil seguir os ditos populares, mas o que há de mais bela do que ser feliz e ver felicidade.
Segurança e conforto? Inimigos declarados de ser feliz.
No final da vida surja a questão... Do que nos arrependemos? Que seja de muita coisa, execpto o que deixamos por favor.

PS- Por favor sugiram ditados populares, que os contrariarei garantidamente a todos=)


Dança como se ninguém olhasse...

Numa qualquer noite de fim-de-semana, os décibeis aumentam, os corpos juntam-se, a escuridão raiada de néon beija os intrépidos noctívagos, o álcool mistura cumplicemente com o sangue. As notas musicais dissipam-se, nota-se somente uma melodia vibrante, que se mistura com o palpitar do coração.
Alguém dança, é mais forte que qualquer um (qual voz vinda de uma esquizonfrenia salubre). Invade-nos o sentimento de que a música tem de ser dançada, tal como um telefone tem sempre de ser atendido. É um chamamento, chamesmo-lhe assim.
Invadidos por um sentimento mais ou menos profundo, de que naquele momento nada mais existe para além do néon e dos ritmos, não há quem resista ao arriscar de um passinho de ança. Uns, de copo na mão, mais recatados, esboçam uns acenos mais vigorosos de cabeça, nada de muito exuberante, aliás, quase despercebido. Afinal, as paredes musicais não são assim tão herméticas para o mundo exterior.
Outros dançam como se não houvesse amanhã, aliás dançam como se não houvesse ontem, pelo menos um ontem que lhes mostrasse a sua imagem mais bizarra. Outros ainda dançam mecanicamente, debitando com entusiasmo os passos aprendidos num qualquer canal juvenil.
Uns dançam sem técnica particular, apenas com as discretas incursões junto de alguém que os entusiasme. Outros dançam sentados, fingindo entusiasmo, ou mexendo apenas um pézinho batucante.
Mas será a técnica o mais importante? Como tudo na vida, nunca importa a forma como o fazemos, mas o sentimento que lhe colocamos.
Dançar, amar, esperar, viver... Entregamo-nos sem receios ou executamos tolhidos pelo mundo e pelas experiências?
Gosto de pensar em dança, sentir o ritmo vibrante de emoções, dançar como se não importasse mais nada, como se ninguém me estivesse a ver, danço, afinal, apenas para mim. Não há preocupações, não há regras, há apenas e só uma catadupa de passos que se encadeiam, não pensados, não ponderados, apenas sentidos.
O dia-a-dia é diferente. A dança entre os meandros do quotidiano são pensados, reflectidos, moldados sobretudo àquilo que parece o mais correcto. Dançamos sem esquecer que alguém olha para nós a cada instante, dançamos lembrano-nos de cada vez que a dança saiu mal, dançamos não com aquele olhar no infinito, mas olhando para a nossa vida, com preocupações substituindo as luzes cumplices.
Será que o álcool ou a semi-obscuridade explicam este dascinio nocturna e esta dança irreverente?
Não será qe os felizes na vida são os que dançam dia e noite? Não terá a dança sido inventada por alguém que não teve medo de ser diferente? Já agora não terá a corrida sido inventada por alguém que não queria apenas andar?
Porque teremos de amar, cumprindo um vicioso ciclo de paixão, que passa a amor e que desova apenas conforto e amizade? Porque teremos de trabalhar, passando pápeis à nossa frente, e esquecer que podemos fazer algo de diferente? Porque temos de viver como se um rigoroso crítico estivesse de placa em punho, ostentando pontuações para a nossa dança?
Tirando a fatiota mais hilariante ao estilo Dirty Dancing, proponho uma dança permanente. Dia e noite (e nos entretantos também)
Dançar a valsa do acordar, o hip-hop do trabalho, o rock do jantar, a house do deitar. Dançar como se ninguém olhasse, como se nenhuma dança menso conseguida (ou amor perdido, ou trabalho falhado) nos marcasse. dançar como se nada mais importasse para além do momento. Dançar em cada sala de espera, dançar em em cada esquina.
Deixar de dançar é mais confortável, não doem os pés, mas não palpita o coração. Deixar de dançar não cansa, o corpo adormece, a mente acomoda-se. E os passos simplesmente desaguam num lago de marasmo, numa poça de felicidade assim-assim (que tresanda a amorfo e comodismo)
A fila chegou ao fim, é a minha vez de dançar, 2 bebidas brancas e 14 euros? O preço da vida é simplesmente, dançar como se ninguém olhasse. Mas já olharam, afinal quem é que dança na fila (ou sala) de espera?

PS Já alguém bebeu uma bebida verdadeiramente branca? Porque raio o vodka translúcido, o whiskey dourado ou o rum límpido têm de ser chamadas bebida brancas? Que tal chamarem-lhes apenas e só bebidas?=)

sexta-feira, 12 de março de 2010

Porque é que os cães perseguem os carros?...

As respostas da vida não são difíceis de encontrar; basta, no fundo, fazer as questões certas. basta a subtileza de uma palara, de um olhar, e os mistérios do universo, guardados a sete chaves (e porque não um cadeado? Afinal, parece-me bem mais seguro que as ditas chaves), revelar-se-ão em catadupa.
Faço muitas perguntas, obtenho poucas respostas. Curioso é que as poucas respostas me conduzem sempre a mais perguntas, mas a busca é estimulante.
Perguntamos para nos esclarecermos ou para saber apenas qual a próxima pergunta? Suspeita-me que quando queremos ser esclarecidos, e pergunta sai mais ténue. "Porque não me queres ver mais? Porque não sou tão importante para ti como és para mim?" Tantas vezes questionada, tão poucas vezes em tom mais altivo do que em surdina ou silêncio comprometedor.
Mas aqui fica a questão do momento, afinal, porque é que os cães compulsivamente perseguem os carros?
Livros e livros esplicam as teorias do mundo, da vida, e de tudo e mais alguma coisa, mas dificilmente abordarão um assunto tão canino, e no entanto, tão humano.
O mais próximo que encontrei de ténue tentativa de explicação foi uma (diga-se desde já, lindissima) balada dos Snow Patrol, intitulada Chasing Cars.
Comecemos pelo inicio; os cães perseguem carros, mas a maioria tem um dono, também ele possuidor de algum veículo. Esse, não tem interesse para o amável canito. Mesmos os cães abandonados têm os seus veículos mais familiares, e esses... pouco ou nenhum interesse têm. Ora depois de marcar o terreno, e da emoção da perseguição, o que resta? O sentimento confortável de... "aquele carro? já o persegui, nada de especial" (e heis que dúvidas surgem sobre a minha sanidade mental, afinal já cito cães...)
E qual a transposição disto para os humanos? Aparte dos trocadilhos claro, de posições mais intimas envolvendo a ergonomia canina, ou a expressão tão algibeiresca de "mundo cão".
Ora a vida não é mais do que uma busca, uma perseguição constante de carros. Os nossos carros ,são, no entanto mais diferentes, mas relação que temos com eles é bem mais complexa.
Perseguimos sonhos e ambições, perseguimos o amor e a emoção, perseguimos sucesso e glória. Lutamos, suamos, choramos, sacrificamo-nos na busca do que perseguimos. E, quando a convicção é forte, e resistimos à tentação de desistir na adversidade, alcançamos os carros.
E no alcançar está o desafio. Alcançar leva a desfrutar, a conhecer e, por fim a habituar. Será este o ciclo inevitável, o fim apenas adiável, mas sempre cumprido?
Do "amo-te tanto que nem dormir consigo" ao "já não nos beijamos há 1 semana e pouca falta senti" cumpre-se este ciclo da perseguição e da habituação. Do "quero tanto ter a minha casa" ao "não partilhar o meu espaço é tão entediante", vai aquilo a que se chama "um tirinho" (quero imaginar que é dado por uma daquelas mini pistolas escondidas no cinto de ligas de uma menina de cabaré).
O cão é mais genuino, cansa-se do carro, que marca como seu (e não quero ccom isto dizer que devemos urinar em tudo o que nos é precioso), e parte em busca do próximo. Busca sempre como um doido, como se as buscas anteriores nem o tivessem marcado.
Nós não procuramos, acomodamo-nos. Pior do que urinar naquilo que temos, é mesmo deixar de lhes dar valor, fugir delas, deixar de lhes dar aquilo que merecem.
Queremos ser felizes, mas a felicidade que temos nunca parece suficiente, queremos ser saudáveis por há sempre quem transpire mais saúde, queremos ser doentes porque têm mais atenção e mimos, queremos ser idolatramos porque achamos ter algo de especial, queremos ser incógnitos porque falta a privacidade, queremos ser amados, queremos sonhar. Substituam o queremos por podemos, mas o tempo verbal é sempre o futuro.
O presente nunca nos chega. Ou chegará algum dia?
Haverá um dia em que correremos infinitamente atrás de um mesmo carro, que não nos acomodemos, e que possamos descobrir que cada dia tem uma nova face daquilo que perseguimos.
Um dia o cão correrá atras de um mesmo carro, que mesmo já tendo marcado, continua a seduzi-lo. Continua a fascina-lo, continua a deslumbrá-lo cada vez mais e após um rápido biscar de olhos lhe aprece ainda mais magnânime.
Este dia não chega, para a maioria das almas, inquilinas da Terra. Os carros passam depressa pela estrada, e mesmo não sendo o nosso sonho, acomodamo-nos ao carro que temos ao nosso lado. Mas isso, não mais é do que uma urinadela de obrigação, mostrando que apenas é nosso.
Mas queremos mesmo que o seja?
Quem queremos que acorde ao nosso lado? Para que emprego queremos acordar todas as manhãs para ir? Que vida quero eu recordar no meu último suspiro? O que deixei de fazer ontem, anteontem, hoje, num qualquer momento? Se a vossa resposta está no presente, são uns belissimos e sortudos cães.
Se a resposta é "não faço a mesma pequena ideia porque me deito ao lado desta pessoa, o meu emprego é confortável, e deixei de fazer inúmeras coisas mas estou seguro" então deixem de ser goden retrievers de humor depressivo, deixem de ser cobardes que nem...gatos.
A vida perseguição, perseguindo sempre mais até encontrar o nosso sonho. Persigam como se não houvesse amanhã, persigam como se não houvesse sobretudo um ontem (quantos pobres cães atropelados, mas que a vontade férrea compele a perseguir), persigam até encontrar não o conforto mas o gosto por acordar a cada dia.
Sejam cães, os carros esperam-vos.

PS- Porque adoro cães, defenderei sempre a sua nobreza. por favor consultem www.apca.org.pt

terça-feira, 9 de março de 2010

O preço da mentira...

"O seu familiar está melhor"... "Não posso ajudar, aquele compromisso é inadiável"... "Claro que gosto de ti...". A vida torna-se com frequência numa vitrine de mentiras. A diferença entre o pensamento (felizmente secreto e cumplice somente com o coração) e as manifestações continua a cifrar-se numa distância considerável.
Porventura o Homem chegou à lua (e quem não anda lá constantemente?...), mas esse distância foi transposta apenas no espaço e não na dicotomia verdade/mentira.
Mas porque mentimos? Porque naquela fracção de milésimos, mais do que lidar com a mentira, temos receio maior de lidar com a verdade.
Quantas verdades se recordam de ter dito? Um sem número delas, concerteza, mas nem são relevantes. Afinal as verdades não eram dificeis de lidar nesses momentos.
E quantas mentiras? Parecem todas elas gravadas, qual tatuagem dolorosa, pois recordam-nos do medo, do nervoso, da ansiedade, de ser descobertos, de ser desmascarados, de ter de lidar com 2 verdades: aquela de que fugimos e evitamos, e a verdade que parimos numa gestação breve, de sermos mentirosos.
As mentiras, as omissões, as deturpações são uma fuga, uma espera. Fuga à verdade, espera que a realidade se torne mais confortável de viver.
Mentimos para fugir dos outros ou para fugir de nós próprios? Mentimos para ocultar a verdade, ou mentimos para a negar a nós mesmos?
Pegando numa trágico e clasíco clichê cinematográfico, imaginemos um doente em estado crítico (popularmente, às portas da morte, ou à janela, conforme a agilidade). O médico ou o enfermeiro que encaram a família tendem a suavizar, a amenizar, a dar esperança, no fundo.. a mentir? Será uma mentira válida? Haverá porventura uma mentira piedosa, isenta à crítica? Ou esta mentira será para evitar lidar com o sofrimento alheio? Evita concerteza um pranto espontÂneo, incómodo de lidar.
Haja verdade, haja sinceridade, haja coragem. Ser verdadeiro, no entanto, e nesta mesma situação não é ser arrogante. É o mais vendido produto televisivo, este engodo de que ser verdadeiro é ser grosseiro ou arrogante (e já agora requer uma barba de meia duzia de dias e uma bengala de estimação). ser verdadeiro é ser sincero, com a situação, connosco, com os outros.
Excluo que nesta situação de portas ou portinholas ou frestas da morta, não haja uma milagrosa cura. Aí mais do que a mentira, há a mentira orquestrada. Ou então estamos mesmo perante um filme hard-core, onde pela milionésima vez se explora a imagem da enfermeira "safadona". Milagres, só Jesus, e nem ele os queria divulgar. Teve ao menos a coragem de não os negar.(referências biblicas e alusão a pornografia juntos dá um cocktail, estranho, mas também digo-vo que já bebi coisas piores)
E os intermináveis affairs, casos amorosos e enredos novelescos? Aí sim rejubila a mentira.Mas porque mentem as pessoas? Para se encontrar com outra? Para manter uma relação que não os satisfaz?
Acima de tudo mentem a eles próprios... "Fui a tal sítio, ter com o tal grupo de amigos, fazer tal coisa" A mentira nota-se quando começa a surgir uma história elaborada, pois a verdade tem tudo para ser simples.
"Gosto de ti, não sabia bem o que estava a fazer, não volta a acontecer". Citando um autor de origem anglo-saxónica: BULLSHITTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTT.
Vamos decifrar: "Estou a mentir a mim próprio, é certo que errei, mas se me auto-comiserar pode ser que esqueça o pulha que sou, assim não tenho de lidar com o facto de ter traído o que sentes por mim" ou "não sou nada feliz, no fundo tentei apenas sabotar a nossa relação porque não a consigo terminar". Mentimos porque não sabemos lidar com a verdade, porque no fundo temos aquele gostinho suicida de ser descobertos. Caso não o tivessemos, não mentiamos.
A verdade às vezes parece-nos demasiado simples, não atrai a empatia alheia, muito menos as suas atenções. Alguém precisa de uma pequena ajuda, aquela mesma pessoa que já esteve ao nosso lado tantas vezes. "Podes ir amanha trabalhar por mim?". (A) "Não, sinceramente não me apetece" ou (B) "Tou cheio de trabalho, e problemas de isto e daquilo, eu é que preciso de ajuda". A resposta define-vos.
Enquanto esperamos mentimos, fugimos de nós próprios, fugimos e olhar nos nossos olhos, na nossa alma.
Pois não há mesmo mentiras misericordiosas, não há mentiras menores, não há omissões (palavra janota e bem vestida para nomear também a mentira). Há apenas verdade, e a falta dela.
Assustem-se revistas cor de rosa, os amantes já não mais mentiram. "tenho namorada mas estou aqui contigo, importaste?". Assustem-se médicos e enfermeiros "diga-me a verdade, é a melhor maneira de me ajudar". Assustem-se caros amigos humanos, perderão amizades (mas que raio de amigos eram se mentiam), perderão empregos (haverá sempre os renitentes há verdade, obstinados no seu egocentrismo), mas ganharão a verdade.
A verdade é simples, mas não é por isso que deixa de poder ser desfrutada. Porquê sunquick de Laranja quando a laranjeira está ao vosso alcance?

sábado, 6 de março de 2010

A liberdade de se aprisionar

Liberdade! O que há de melhor? Lutas intermináveis por este valor, mensagens infinitas sobre este ideal. Lberdade para sonhar, liberdade para viver, liberdade para decidir, liberdade para sofrer e para desiludir. No fundo liberdade para ser livre.
No entanto sendo livres, optamos vezes demais por não o ser. É comodo ser apenas livre no pensamento, na ideologia, e não nas acções.
Numa qualquer sala de espera de um qualquer hospital acumulam-se pessoas livres, pelo menos na teoria. Adoeceram (num grau mais ou menos elevado, mas isso é questão para discussão mais alargada), e tomaram a liberdade de ir ao local de culto do doente (isso mesmo, o santuário das maleitas, vulgo Hospital). Liberdade que fica à porta, no fundo não procuram explicação, procuram apenas que alguém lhes diga o que fazer. Sorte das sortes, o papel autoritário que não explica e apenas transmite (após longos segundos ou minutos de matutação, conforme os anos de carreira), assente que nem uma leva no médico.
Abdicamos da liberdade, pelo conforto da obrigação de cumprir um esquema de uma panóplia de medicamentos e recomendações. "Alguém disse para fazer" é mais seguro do que "sou livre para perceber o que tenho".
Uns anunciam tornar-se revolucionários, procuram a explicação (seja uma busca exaustiva no espaço virtual ou numa qualquer revista cor de rosa), mas rapidamente esquecem as suas dúvidas. "Fui mal atendido" apregoam uns, "não fiquei esclarecido" sussurram outros, mas declamar a alto e bom som... tá quieto (e aqui se esgotou a riqueza do palavreado numa expressão tão tradicional)
No amor somos livres de escolher, de amar. Escolhemos a beleza de alguém, mais a sua personalidade inigualável. Somos livres, até ao momento em que a coisa dá para o torto ( brilhante raciocínio geométrico; se não está direito, está mal). Aí esquecemos a liberdade, aprisionamo-nos ao comodismo e se alguém tem de resolver algo que seja o outro, ele é que é o livre na relação.
Portanto não só rejeitamos a liberdade, como ainda a atiramos para longe quando não nos é conveniente.
Adoro as eleições, consigo demonstrar todo o meu poder sobrenatural adivinhando o que estará a dar em 3 canais em simultâneo das 19h às 23h. Aparte disso, torna-se um dia hilariante, um exercicio curioso sobre liberdade.
Cresci ouvindo a história de que no passado havia apenas um partido, sempre ganhador. Hoje mais do que ouvir, vejo vários partidos, mas poucos a votar. Abdicamos da liberdade de escolher, é mais fácil que o façam por nós. Agarramo-nos com afinco apenas à liberdade de reclamar, essa sim bem aguçada. Mas quem não vota,tem o direito de reclamar quando se escondeu na hora da decisão? Tem pois claro, é livre, mas nem sempre se lembrou disso.
Ora, amor, politica, saúde, reune-se aqui bom material de debate... Sou livre, posso decidir, posso comentar, posso inventar, iludir, posso fazer "o que me der na telha" (alguém tem cabelo cor de tijolo?...). Mas não me posso esquecer que a telha é parte do telhado e mais do que ser livre temos de merecer a liberdade.
Deixamos vezes de mais que pensem por nós, que sejm livres na nossa vez. Acomodarmo-nos é abdicar da felicidade, é também abdicar da tristeza, mas são os extremos que adoçam a vida. Num tom monocórdico ninguém disdruta a música, numa tonalidade cinzenta ninguém se deslumbra com a paisagem, num olfacto bolorento ninguém se enterna à embriaguez de um perfume.
No fundo não ser livre em cada passo é isso mesmo. Tornar as esperas constantes da nossa vida, um abdicar da liberdade, apenas um momento de pausa até nos ser dito como fazer.
Eu quero ir ao hospital para perceber o que tenho, para debater o que é melhor. Eu quero amar para me apaixonar por cada pedacinho do outro, e não vitimizar-me, lamentando em surdina (ou a alguma amante oportunista) o que não tenho ou poderia fazer. Eu quero votar, quero ser o jogador que conduz a equipa, quero ser o primeiro sugerir o que idealizo, no fundo quero ser livre... SEMPRE.
Ser livre é como ganhar. É preciso aguentar a responsabilidade, e querer sempre mais.
Volto à sala de espera, desepero pois a única liberdade é a dos entrometidos... "para que médico está?". E que tal... "porque raio gasto as perguntas todas na sala de espera para não me sobrar nenhuma no consultório?"

quinta-feira, 4 de março de 2010

Sala de(s) espera

A vida é uma sala de espera. Esperamos para ser felizes, esperamos para ser saudáveis, esperamos para sonhar, esperamos para nos desiludirmos.
Esperamos antes, esperamos durante, esperamos depois.
Esperamos o melhor, sem nunca deixar de esperar não ter o pior.
E depois de ter aquilo que esperamos, voltamos a esperar, tentando perceber o que significa a conquista de terminar a espera.
A espera confunde-se vezes de mais com o desespero, e a sala de espera é onde se desespera;
Por um sonho, por uma esperança, por uma notícia má, por uma noticia assim-assim, pela próxima espera.
Nascemos esperando que no além encontraremos a vida perfeita, morremos esperando voltar a viver. Gozamos a felicidade, com a ansiedade de a espera ter acabado, sofremos com a tristeza, agonizando na espera que nunca mais termina.
Não fujo à regra, espero algo. Espero nunca deixar de esperar, pois a espera comanda o sonho, a ansiedade de querer mais, o nervosismo do desconhecido. Pois está claro que a espera mantém o enigma da imprevisibilidade: esperar não é sinónimo de conseguir, de concretizar, e muito menos é parceiro íntimo de o resultado ser aquilo que...esperamos.
A diferença da minha espera é não ser muda ou tão pouco, silenciosa. É uma espera ruidosa. Palpita o coração, saltitam as palavras.
Quanto ao coração poderá confundir-se com uma qualquer doença menos feliz (como se houvesse alguma boa), mas espero que não. Já as palavras são um grito mudo, mas barulhento da minha espera.
Espero ao lado de tantos outros, espero sozinho, espero em cada canto e quando me vejo sem esperar, desejo...esperar.
Espero a hora de saída do emprego, espero depois voltar. Espero amar e ser amado. Espero vencer e ser melhor . espero saborear e nunca ficar cheio. No fundo...espero.
Mas qual o segredo para esperar? Haverá um bom esperar?
Há um segredo! (e os sinos celestes tocam, ou, numa questão de gosto pessoal, afinam-se as guitarras e perfilam-as as mesas de mistura). O segredo é o que se faz durante a espera.
Uns lêem revistas (como quem diz, enchem a espera de trivialidades), outros pensam naquilo que os espera (candidatando-se a eternos desiludidos ou a pérpetuos não-realizados). Outros ainda ensaiam para o final da espera (insinuando-se a prémios de péssima representação), ou questionam a espera alheia (tal é o magnânime interesse da sua própria espera). Raros, aproveitam a própria espera, desfrutam da sua própria sala de espera, entregam-se à imprevisibilidade da espera, e arriscam-se no fundo, a serem felizes.
E ser feliz implica deixar de esperar? Ou implica esperar mais, continuar a sonhar?
Esperamos saber a resposta, ou esta será mais uma espera?
Não há respostas, há opiniões; há a espera pelo momento em que mais do que esperar passamos a contemplar, aí acaba a espera, mas também a vida, pois esperar é querer, e querer é viver.
Nestas linhas deixo a minha espera, deixo a espera dos outros, esperando simplesmente aproveitar a sala de espera. Nestas linhas deixo um pouco de mim, sem falar de mim, deixo os meus olhos (astigmatas, mas sinceros), os meus pensamentos (os não sujeitos a censura), as esperas com que me vou cruzando.
Ler revistas? nahhhhhhhhhh. É demasiado interessante a sala de espera