terça-feira, 3 de agosto de 2010

A osmose e Newton: a fisico-quimica da vida

Uma das teorias mais interessantes deslindadas pelas ciências físico-químicas, é, sem dúvida, a osmose. Presente na maioria dos fenómenos naturais, explica muitos dos pequenos factos que pincelam o quadro do nosso quotidiano.
Ora fazendo aqui uma necessária, mas breve, resenha, a teoria define que havendo o contacto entre 2 meios em que exista uma concentração diferente de uma matéria, ou substancia, a mesma passa naturalmente de onde a concentração é maior para onde é menor, até assim se atingir um equilíbrio. É a harmonia cósmica em todo o seu esplendor de papel de embrulho (amarrotado pela complexidade do Homem).
Não posso deixar de notar em primeira análise uma gritante contradição: olhando para uma carteira que prima pelo espaço livre (faria eco sem fim, se tivesse uma carteira de maiores dimensões), não deixo de pensar que diariamente passo pelo menos por um Banco. Ora aqui a osmose esgota-se na teoria e a maior concentração de capital permanece bem reconfortado dentro das paredes da caixa forte.
No entanto a osmose contagia a vida quotidiana. Repare-se por exemplo na mediocridade; num mundo actual em que se prima pelo cinzentismo, torna-se escassa a cor da diferença.
As baixas expectativas, o abdicar da capacidade de sonhar, a perspectivas apenas de uma felicidade "assim assim" constituem o medíocre. E este medíocre abraça todo o positivismo, todo o grito que rompe o silencio, toda a luz que fere a escuridão; a osmose sente-se em todo o seu esplendor e acomoda-se o sonhador, resigna-se o apaixonado pateta, desinventa-se o inventor. Mais do que o sonho, a ambição ou a paixão a osmose reestabelece um triste equilíbrio, não permitindo mais do que a realidade "assim assim".
Reparem no exemplo de um autocarro: o passageiro recém chegado procura sempre o espaço mais vazio para se acomodar (onde há a menor concentração de pessoas), isto está claro depois de evitar as milhentas pastilhas elásticas acomodadas em vários assentos. Até aqui a osmose opta pelo mediocre, opta pela distribuição dita harmoniosa, mas que alma se encontra em harmonia quando está sozinha?
Raio da química, que com os seus iões, protões, neutrões e afins nos impinge uma mediocridade que não ousamos contrariar. Para que conste, e agora que já folheei com atenção o desgastado manual de química, importa referir que a natureza nos contemplou com o fenómeno da convexão. Trocado por miúdos (que raio de expressão idiota, afinal o analfabetismo há mais no idosos que nas crianças), explica-se que fazendo uma forçazita, a osmose pode ser contrariada. Mediocridade, mantém-te longe, eu ouso ser diferente.
O impressionante é que a mediania, a mediocridade, a acomodação, têm elas uma imponente força de convecção no que toca à mudança, à inovação. Imunes a qualquer luz que inrrompa pelo seu breu e cinzentismo, contrariam a osmose, que aparentemente só funciona para os aspectos que debotam a cor da vida, que sugam o nectar da existência.
A vida surge recheada de inevitabilidades. A vida é quase caracterizada pela maçã de Newton, que para além do aspecto sumarente, define a gravidade, a inevitabilidade da queda, do acontecimento.
Newton sentado por debaixo da sua maçã, Galileu no topo da Torre de Pisa, não concebiam a hipótese de algo diferente suceder. Tal como eles, mais do que esperarmos uma queda, mais do que esperarmos que ocorra de uma determinada forma, esperamos que a vida siga certos pressupostos, decorra de uma maneira pré-programada, siga um plano explicado exaustivamente, ilustrado claramente.
A Newton restava a opção de contrair a queda da maçã, apanhá-la, arremessando-a de volta, arremessando a inevitabilidade de encontro a um destino fatalista. Restava a opção de pegar na maçã, atirá-la para longe, admirar a horizontalidade do movimento que foge à rotina, que foge à simples queda.
A vida não tem de ser um pack com condições bem definidas, com uma quantidade de felicidade permitida delimitada por plafinds.
A vida não tem de ser um acumular de mediocridade, mas sim uma explosão do inesperado a cada dia. E não é certo que a um dia se siga outro, afinal a maçã nem sempre cai, apodrece. Ela resiste, floresce, torna-se impevisivel.
A vida é feita de leis, mas que sejam leis construidas na imprevisibilidade de cada dia, na escolha da cor em detrimento da pincelada cinzenta.
O

domingo, 25 de julho de 2010

A origem do universo: uma nova perspectiva do Big Bang

A teoria mais aceite para a formação do universo é o Big Bang, ou, se preferirem a tradução, o Grande Catrapum. A teoria consiste num pressuposto básico: existe uma condensação de matéria (tudo o que era existente), que a dado momento contém tanta energia que não lhe resta alternativa senão explodir (curioso que dito assim parece que descrevo uma discussão conjugal...).
Ora impingem, perdão, ensinam portanto que a partir da explosão da matéria (o dito catrapum) se inicia a expansão do universo. Fica-me, no entanto a dúvida... Se a condensação supra-escamoteada era a  totalidade de tudo o que existia no universo, então para onde raio se irira expandir? Teria de haver espaço, teria de haver algo mais, senão não haveria possibilidade de expansão. Por mais tralha que se acumule nas minhas prateleiras, se não tiver uma arrecadação ou garagem, não há por onde expandir o meu patético império de bens pessoais.
O big bang não é mais do que um mero exercício conpulsivo de uma mente humana que procura a explicação para tudo. Procuramos a teorização, a racionalização, a dissecação de cada um dos aspectos da vida que nos falha à compreensão.
Porque motivo não saí de casa 5 minutos mais cedo e teria sido envolvido num acidente catastrófico? Porque razão tomei a opção mais idiota num qualquer momento? Qual a explicação para tanto azar se abater sobre mim? Ou ainda o mais típico: porquê eu?
Questões sem fim. Questões às quais não tem de corresponder obrigatoriamente uma resposta.
Desde os tempos da escravização intelectual do catolicismo que interiorizamos que dogmas (verdades inquestionáveis, para quem só chegou ainda à letra C do dicionário) apenas são relacionáveis com Deus.
No entanto a vida encarrega-se de ir comprovando um dogma diário: o "porque sim". A génese do porque sim remonta ao Big Bang, que aconteceu porque sim. Expandiu-se o universo porque sim, espalharam-se, quais cacos de um cristal baratucho, os planetas, estrelas e poeiras cósmicas porque sim, criou-se vida porque sim.
Muito humor houve concerteza na criaçao do ser humano, e aqui o porque sim deve ter sido acompanhado das mais valentes e audiveis gargalhadas. A "idade dos porquês" perpetua-se ao longo de toda uma existência pouco conformada aos "porque sim", mas acomodada às espatafúrdias (por favor ao chegar à letra E do dicionário confirmar existência desta palavra)  teorias explanadas com pompa.
Moral da história, o Homem busca a explicação para o mundo que o envolve, para a sua própria Natureza, mas satisfaz-se rapidamente pois a procura pela explicação é apenas uma procura pelo conforto.
Aceita-se a teoria do Céu após a morte, eplo seu conforto, mas...onde raio caberiam num espaço todas as pessoas que algum dia pisaram a Terra? E quem teia sido o primeiro a lá entrar? Já agora, e preocupo-me sobretudo por motivos estéticos, entrando no Céu, ficamos com a aparência à data da morte ou é opcional? Por fim fico com o lado dos 20 anos. Na ausência de explicação estruturada, limito-me a esperar para ver. Depois conto!
A vida é portanto imprevisível, cheia de decisões esporádicas que não percebemos. Basta portanto de explicações medíocres (já imagino o podre namorado traidor a desculpar-se com o álcool, ou a namorada traidora a dizer que as amigas é que incentivaram). Basta de dissecar emoções, sentimentos, impulsos. Mais do que explicar há que assumir a vida, há que ter coragem de saber não só aceitar os "porque sim", mas gritar a plenos pulmões "porque não?"

PS - Deixo uma questão pertinente: se o universo é tudo o que existe, e nele há buracos negros (como se houvesse algum buraco com iluminação natural radiante), quer dizer que o universo tem uma cave? Já agora há escadas (ou elevador) para o andar superior do univeso?

segunda-feira, 19 de julho de 2010

É caseiro sim senhora...

Numa altura de contenção financeira, em que os tostões na carteira perdem espaço para as simpáticas traças (e que gordinhas estão, alimentadas pelos vestígios de infrutíferos talões da sorte grande que sempre foi azar), continuamos a escolher formas curiosas de gastar os nossos recursos.
Todos na vida procuram o melhor, dentro das limitações que a realidade cruel nos impõe. Mas este melhor é, não raras vezes, uma ilusão, uma máscara. Procuramos sim o mais reluzente em vez do verdadeiro material precioso (já o dizia numa magnifica música o poeta cantor edward louis severson III).
Nos beirais de inúmeras estradas deste país, de tantas lugares mundados, empilham-se bancadas artesanais apregoando o produto caseiro, o produto original, recheado de pureza da ponta da folha de espinafre ao tutano da galinha depenada. O citadino pára, desembolsa dinheiro, reluz a genuidade do campo, e para casa, leva a ilusão da fruta mais fresca (aquela doçura da maça escorrendo suco que nem uma chuva de sabor a cada dentada), a promessa da carne mais tenra, a convicção da flor mais aromática ou da verdura que de tanta vitamina e fibra, envergonha o melhor dos suplementos vitamínicos. Leva as ilusões, leva as convicções, leva também o brilho, sem quase nunca levar o precioso. Leva sim a fruta das grandes superfícies comerciais, a carne de um banal talho, a certeza sobretudo de que procurando o melhor esqueceu o precioso, levou apenas o que mais brilha. Esperto o saloio, que de ar tão angelical e puro, limitou-se a adquirir os seus produtos num qualquer supermercado. Não é o conteúdo, é a embalagem reluzente que importa.
Aqui se aplica o curioso provérbio de "comprar gato por lebre". Ainda que nunca eu comi lebre, mas as semelhanças entre um semelhante de coelho e um gato me pareçam aí sim demasiado óbvias. Confesso nunca ter visto um gato escalfado, como os pobres coelhos no talho, mas acho que aí reconheceria a diferença. Já a diferença entre latão polido e ouro ferrugento é de distinção mais destinada aos olhos e instinto mais exímios.
Ora com as suas compras aldrabadas no aconchego da sua dispensa, decide o nosso "alguém" entre tantos "ninguéns", seleccionar um destino de férias. Vasculha os sítios que cada um dos alguéns do seu mundo particular de ninguéns recheia de elogios. Esquece-se que não há nenhum ninguém que, para ser alguém, não escapa à gabarolice e as férias num sitio exótico, mas ilustradas por chuvadas, alergias e tropelias, tornam-se um conto de fadas, solarengo
Escolhe-se o hotel mais caro, pois nem que seja por 2 tostões, se é mais caro é necessariamente melhor. Escolhe igualmente o destino mais caro que lhe permite a sua bolsa, com um qualquer incremento de um fácil (mas condenador) empréstimo de ocasião. Se é mais caro, é naturalmente, melhor. Esquece os seus sonhos, os seus gostos, as suas preferências. Esquece porventura que tem um medo aterrador de água, no entanto selecciona o paraíso dos mergulhadores. Tem um medo petrificante de longos voos, mas escolhe um destino do outro lado do mundo (para além de onde Colombo acreditava cair da Terra para o vazio. E que delicioso era a ideia de um mundo chato e achatado). Abomina a praia e não foge ao destino cuja areia beijando o mar são a única opção para se ocupar. Esquecemos o que valorizamos para ostentar-nos por cada cantinho de um mundo que nos ignora com uma reluzência que em nada condiz com a nossa felicidade.
Escolhemos o mais caro, tal como escolhemos o mais barato (e aqui surge a irritante mania de cidadãos abastados apregoarem que compram económico na feira as suas blusas GAP, Sacoor e afins, tudo para reluzirem com a sua simplicidade artificial), o mais piroso, o mais requintado. Escolhemos vezes de mais o que mais brilha aos olhos alheios do que o que é realmente precioso para nós. Deleitam-se mais os olhos do que a alma, esforça-se o ego mais por agradar ao alheio do que a ele próprio.
Para ver o brilho em algo é indispensável que seja polido. Polido com empenho, com esforço, com perseverança quando após tanto esfregar (e o teimoso génio da lampâda permanece numa teimosa sesta) o brilho urge em surgir.
Mas o brilho fácil desvanece, desgasta-se demasiado rápido. É a diferença entre ter um brinde reluzente saída numa bola de 2 euros, ou um anel de ouro escondido no fundo de uma gaveta, e que espera apenas a nossa atenção para resplandescer.

PS- Avozinha, obrigado por tantas vezes me levares à feira quando era mais pequeno, mas os senhores da feira cheira-me que vendem azeitonas e alfaces iguaizinhas ao Pingo Doce=)

sábado, 24 de abril de 2010

Esticando a mão, toco no vidro que me separa do mundo...

Gentilmente ou bruscamente, a areia é acariciada pela água do mar. Beija-a com a violência das ondas, escuta-a com a tranquilidade de uma maré que desagua serena. No horizonte o sol deixa-se embalar, ameaça tocar a água, naquela distância longínqua que não poderemos nunca alcançar.
As marcas de pegadas desvendam histórias imensas, de brincadeiras, de romance, de aventura, de um qualquer "porque sim", de todos os "porque não?".
Mas, transpondo os limites da praia, alinham-se carros, empilham-se almas. De norte a sul do país, de este a oeste no mundo, a imagem é transversal, qual fotocópia, pincelada somente com cores diferentes. E por mais que viaje a imagem repete-se, sem cultura, apenas com pequenos detalhes que a impedem de ser enfadonhamente igual.
Dentro de carros pelo mundo fora alinham-se casais, famílias inteiras, individuos solitários, que escolhem ver o mundo através de um vidro. Resguardam-se do calor da areia nos pés, dos salpicos refrescantes que saltam frenéticos de cada onda, das conchas enterradas na areia, vindas de uma qualquer parte do mundo.
Não será então preferível sintonizar no conforto do sofá um qualquer canal que, em filmes hollywoodescos ou em documentários entediantes, mostra a praia?
Admiro esta procissão domingueira, afinal de contas as massas (porque raio um aglomerado tem de ser chamado de massa? Será uma pasta humana?), desafiam o comodismo e vão ver o mar. Porque criticar? Porque simplesmente preferem estofos confortáveis, ar condicionado e musiquinha sintonizada, gritando clássicos, relatos domingueiros de futebol ou êxitos da dança moderna? Até seria uma opção possivel de aplaudir, o conforto acima de tudo.
Mas no final do dia quantos saberão a temperatura da água? Quantos deixarão um castelo de areia que marcará a sua presença (devidamente decorado posteriormente por uma poia de gaivota, com certeza)? Quantos sentiram a areia escorregando estre os dedos?
Vivemos hoje o mundo demasiado através de outros meios  que não os nossos sentidos. Deixamos que o mundo passe por nós sem deixar-mos a nossa pegada na areia, simplesmente observando-o. Está tudo bem desde que no nosso minusculo espaço em redor o ar condicionado esteja agradável.
Amamos artificialmente, envolvemo-nos o quanto baste para que a relação seja aquilo que o mundo espera de uma relação, tranquila. Dançamos timidamente, corando quando o volume do rádio é impossível de manter baixo (apetece mesmo, mesmo, mesmo berrar aquela canção, ainda que estejamos no meio do trânsito), ou quando todos à nossa volta estão parados. Vivemos amorfamente procurando apenas um conforto momentâneo, esquecendo que a alegria se procura para além da nossa "bolha" pessoal.
Os vdros que erguemos à nossa volta não nos deixam esticar a mão, mas não nos deixam, também, sofrer. E aqui surge um cruzamento, sem possibilidade de seguir em frente (excepto, está claro, naqueles dias em que o álcool inventa novos caminhos ou convence de que é possível atravessar paredes); é inevitável optar pelo conforto ou pela emoção, é fatídico escolher se permanecemos dentro do carro ou se arriscamos "sentir" o mundo.
Diz uma música que me emociona (vide Many of Horror da autoria dos Biffy Clyro), que duas pessoas têm de chocar para ficar juntos. No amor chocamos de menos, erguemos o vidro do conforto, esquecemos a emoção de cada segundo em que vivemos intensamente cada sentido, cada odor, cada textura, cada sensação.
Diz a minha alma que vejo demasiadas tentativas de controlar o ambiente, de o dotar de elementos confortáveis, planeando cada dia, cada momento ao mais exaustivo pormenor. Vejo demasiados atentados à emoção, eliminando a surpresa; expectamos em demasia, trabalhamos arduamente para que cada momento saia na medida exacta do que perspectivamos.
Dizem os meus olhos que as mãos deixam de rejubilar ao toque, que o nariz adormece perante os mais inebriantes odores, que a alma deixa de trautear aos acordes de músicas magníficas, que o coração deixa de palpitar na eminência de emoções fortes. Tudo porque entre nós e o mundo há uma barreira que coloca em estado de coma os nossos sentidos.
Amigos, amigas, pessoas à beira de qualquer praia, à beira de qualquer emoção, tenham a bondade de abrir a porta do carro, seja num dia solarengo, seja num dia chuvoso. Sintam o calor na face, sintam a chuva refrescante, vejam as ondas no seu esplondor glorioso, sintam a vida TAL E QUAL ELA É.
Amem sem barreiras, vivam sem o raio do ar condicionado (atentem bem no nome, o ar já está condicionado) que só vos dá um conforto fútil, breve, sem sentido.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Home sweet home: Serão as paredes, afinal, doces?

Nas palavras imortalizadas pela cativante balada de Chris Daughtry todos nós percorremos um trilho, que por mais tortuosos sentidos tome, leva-nos sempre até à nossa casa. "i'm going home, to the place where i belong", grita a plenas pulmões o música, grita em plenos pulmões o nosso espírito inquieto.
Parecendo saído de um qualquer drama cinematográfico, alguém, um destes dias (não importa quando, pois o passado torna-se em presente sempre que o recordo) faz da sua surdina um grito audível, exclamando "tenho saudades de casa". Momentos depois suspirou pela última vez, o ar evaporou-se de um corpo já frágil, o sangue gelou em veias cansadas de um vida de frenesim, o coração repousou de um ritmo incansável, acelerado pela alegria ou pelo medo, adormecido pela tristeza ou pelo conformismo.
O que buscamos nós na vida? Ser felizes? Sem dúvida; Sentirmo-nos realizados? Claro; Alcançar um passado digno e um futuro risonho? Certamente. Mas a vida é cheia de turbilhões de sentimentos, de eventos, de acasos. Que nos testam, que nos magoam, que nos ferem com a cruel verdade de que nem tudo é possível.
E se a vida é uma espera, é também uma indubitável verdade que é também uma fuga. E corremos, meus amigos, todos na mesma direcção: para casa. É lá a nossa segurança, o nosso abrigo, o nosso "botaão de pausa" num filme sempre em rodagem, tantas vezes depressa demais para que sequer consigamos ler as legendas (ainda que não ler as legendas possa ser igualmente um problema resultante de vermos o filme perto demais, nada que ver o filme ou qualquer questão na vida 2 passos atrás, não resolva)
Mas onde é a nossa casa afinal? Serão as 4 paredes que nos dão abrigo de uma Natureza jocosa e irónica? Será um local? Ou terá algo para além de uma dimensão física? A casa não é construída de tijolos, de telhas, de cimento (de maior ou menor consistência, directamente proporcional ao empenho e consciência do construtor), é constituída por sentimentos, abraços, sensação de segurança e de pertença. O lar, mais do que uma dimensão visível é uma sensação, e o que procuramos é, no fundo onde pertencemos.
Não há melhor exemplo do que a história (e não estória como alguns novos inventores do português procuram impingir, aliás mais do que a eles, respeito todos os que tiveram a bondade de me ensinar o dom da escrita) dos 3 porquinhos e do lobo mau. Ora vamos então por partes.
Resumidamente 2 dos porquinhos foram preguiçosos, ergueram casas frágeis. Um outro porquinho ergueu uma casa mais sólida, cheio de brio e labor. Eis chegado o lobo mau (ainda enfartado ou não após o belo deguste da avózinha do Capuchinho Vermelho), que, obviamente não tendo hábitos de fumador inveterado e conservado um invejável fôlego, deita abaixo as casas frágeis, restante a casa sólida como porto de abrigo.
Injustiça N.º1: obviamente a casa de tijolo foi mais demorada a construir, logo caso o logo lá tivesse ido primeiro, provavelmente estaria ainda nas suas fundações.
Injustiça N.º2: sendo a última a ser visitada, a casa sólida sofreu um sopro bem menos conseguido. Afinal não há fôlego que resista, nem mesmo do melhor alpinista ou mergulhador de apneia.
Injustiça N.º3:alguém quer fazer passar a ideia de que só uma típica casa de tijolo é segura, quando há séculos o ser humana habitou em casas de gelo, palha e afins materiais.
Alguém questionou quem seria o porquinho mais feliz? Porque razão tem de ser a casa física mais sólida a proporcionar a maior felicidade?
Mais do que qualquer condição física, a nossa casa são os nossos lados. Aqueles que amamos, respeitamos, desejamos, são o nosso tecto, as nossas janelas, cada rodapé, cada ombreira da nossa vida.
Mais do que uma cozinha reluzente, mais do que uma casa-de-banho (mas afinal só se lá toma banho?...) admito que casa-de-fazer-necessidades se tornava um nome pouco apelativo) luxuoso, mais do que um quarto repleto de mordomias e uma sala-de-estar (e não é qualquer sítio uma sala de estar? basta lá estarmos e ser uma sala...) repleta de decorações inúteis, acariciadas até ao tutano pelo cotão e seu amigo intimo pó, importa ser feliz.
Um qualquer sítio será o nosso lar se lá estivermos felizes. Mas a função do lar não é só proporcionar conforto. Aliás mesmo a mais bela casa se torna obsoleta, nos cansamos dela se deixarmos que esmoreça o encanto inicial de quanto metemos o primeiro pé dentro dela.
Eventualmente o lobo acabaria por conseguir entrar na casa sólida, pois habituados ao sentimento de segurança, os porquinhos descurariam investir no lar. Iriam acomodar-se e em breve tudo seria melhor que o seu lar.
Para muitos a acomodação à casa, leva a que o seu lar seja transferido para um bar próximo, para o emprego, para os braços de um qualquer amante. A casa traz segurança, traz comodidade, mas não é o lar.
O lar é doce, são os beijos de quem amamos, os sentidos abraços dos amigos, o amor da família, a adrenalina da aventura. Mas o lar é exigente também; agarrá-lo é um desafio, que atormenta a nossa tendência natural de acomodação.
Mais do que sentirmo-nos em casa, temos de nos sentir no lar. Mais do que descalçar os sapatos e colocar os confortáveis chinelos, há que amar o lar, fazê-lo sentir tão especial quanto nos faz a nós.
Saiam de casa, procurem o vosso lar. Alguém o procurou fora deste mundo, procurou algures num espaço que desconhecerei, mas a distância que cada um percorre depende dele próprio. O lar é cada esquina, cada momento, cada segundo, em que lutamos, em que sorrimos, em que dançamos, em que somos felizes.
Abram as portas, pois as 4 paredes que vos resguardarão da chuva apenas vos impedem de sentir a paixão de cada gota.
Façam da felicidade de cada momento o vosso lar, o sítio onde afinal, pertencem.
Home sweet home... para não esquecer, o doce apenas se sente quando já provamos o amargo. Requer-se luta, requer-se sofrimento, requer-se coragem para fechar a porta de casa e entrar nos portões escancarados do lar.

PS O meu respeito e solidariedade a todos os que têm de fazer da rua a sua casa. Não deixem de buscar o vosso lar.
Esta solidariedade está imortalizada de forma brilhante por Pedro Abrunhosa, não deixem de espreitar: http://www.youtube.com/watch?v=sqK7Ys155j4